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quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

divino melancólico


surpreendo-te com pessoa debaixo do braço

tenho um vestido curto

preto

nada sabia das heteronímias

jurei que ele era só um

e que os outros só serviam para trocar postais

ir à bica


aos dezasseis anos

assinei nos livros o meu nome

mas inventei a data

o dia

nunca quis um gps da memória

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

loiça na máquina


tendes detergente em pó ou em cápsulas

escolhei

tendes temporizadores como válvulas peitorais

e contas para pagar em vez de campainhas

e orgasmos vendidos em pacote com picotados

mas não esqueceis a loiça na máquina


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Avant-garde ou a Batalha do Presente




Vivemos sem dúvida, numa época atípica, descaracterizada de estilo e "a suspensão das utopias" dá uma tonalidade albina às emergentes vanguardas. Batalhar pelo presente, confere-nos uma justeza e honestidade sem par (damos enquanto artistas apenas o que somos em determinado momento), mas é também estar unicamente disponível para o que é concreto. Creio que a suspensão das utopias está associada à máxima bíblica: "ver para crer". Contudo, para ver aquilo que ainda não nasceu, a batalha tem de estabelecer-se entre o eu no presente e um pouco de graduação. Não creio que possamos continuar por muito mais tempo, míopes do futuro.

No teatro, a questão é sintomática. Do ponto de vista do actor, fazer teatro contemporâneo (e não me refiro aos performáticos) é abolir a ideia de personagem. Não existe uma identidade fícticia que temos de criar num espectáculo, usando o corpo e a imaginação. O "actor do século XXI", serve apenas o texto, o papel e expõe-se em absoluto na cena. Apropria-se das palavras do autor e afirma apenas a única certeza que lhe é permitida ter enquanto artista: eu, aqui e agora.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

o meu reino por um bibe




Hoje olhei para o senhor da mercearia e reparei que tinha uma bata verde. Fico sempre tão distraída com o bigode farfalhudo, que nunca tinha reparado na indumentária do senhor.

Desde miúda que sempre quis ter um bibe, uma espécie de singular masculino da bata. Um bibe na infância era um aval de convivência vigiada. Uma senha de vestuário que se partilhava com os outros meninos aparentemente à solta. Nunca tive um bibe, nem essa tranquila pseudo-liberdade.

Eu tinha o cabelo curto-barbearia e trepava paragens de autocarros. Em dias excepcionalmente felizes, o meu tio Nini desafiava-me para o break-dance, que consistia em barrarmos o chão da cozinha com manteiga Planta e deslizarmos desde a porta até à parede da varanda, ao som de vinis muito marados. A parte mais perigosa da actividade consistia na limpeza do chão, mas deixávamos esse risco para a avó assim que chegasse a casa. Sempre sujei a minha própria roupa, não havia nenhuma peça de vestuário sagrada que eu pudesse poupar. Mas gostava de ter tido um bibe, daqueles vermelhos aos quadradinho com o meu nome bordado à mão. Já as batas, confesso que dispenso. Estreei-me a trabalhar com uma dessas brancas. Da experiência a única coisa que recordo é uma boca aberta e cariada.






domingo, 13 de dezembro de 2009

certificado de artista



o certificado do artista
é
um enlatado
num armazém estatal
fora do prazo

sábado, 12 de dezembro de 2009

Christiane F.


Ontem assisti à versão cinematográfica alemã de Christiane F. A expectativa era grande, pois este foi um dos livros que mais marcou o início da minha adolescência (a par do erótico Henry&June de Anaïs Nin). Tinha exactamente treze anos (os mesmos da protagonista da estória), quando li Os Filhos da Droga, escrito na primeira pessoa e que neste caso deu origem ao nome do filme.
Aos treze anos fiquei absolutamente fascinada, atraída pelo universo das drogas, embora o medo sempre me tivesse retraído o suficiente para não me deixar avançar. Depois, todo o universo cool que ia das roupas (skinny jeans e blusões) à música, passando por uma postura física de errante criatura, era extremamente atraente.
Quase 20 anos depois, visualizei a estória em filme. Aquilo que a minha imaginação tinha criado com grande beleza (embora o resultado do filme não seja de todo decepcionante), ficou guardado nas memórias da puberdade. Vi no filme Christiane F., uma rapariga como tantas outras que consomem drogas, empoleirada no abismo. Aquilo que o livro me tinha dado de peculiar (a excepcionalidade desta rapariga, diferente de todas as outras), o filme retirou-me com um duro realismo. No filme, Christiane F. é apenas uma miúda drogada, que por sorte conseguiu safar-se. O filme é muito claro. Para quem leu a obra, complementar com o dvd é uma experiência enriquecedora.