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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009


chá

pretexto para trocarmos risos de açúcar

em cor-de-rosa sentadas

somos mulheres a segredar desejos

com medo de crescermos mais que os sapatos


de tesão

barram-se os scones

quentinhos

e as migalhas ficam presas nos dentes

os cigarros vão queimando no cinzeiro

deixando cinza e fumo

o aquecimento está ligado


não há silêncios

nunca

as palavras circulam de boca em boca

vivas

excepto quando se sopra e se leva

a chávena à boca


sábado, 26 de dezembro de 2009

o queijo dentro do queijo ou o paralelo infinito


O teatro dentro do teatro é um queijo cuja sobredosagem poderá provocar alzheimer nos seus consumidores, pois segundo a tradição o seu consumo excessivo resulta em esquecimento. É um produto muito fabricado e consumido, mas dada a sua digestão dificil e o alto índice de gordura latente é como comer uma coisa que já sabemos que é boa mas que nos cai mal, embora a comamos sempre que se nos depara diante nós. Cada peça de teatro é apenas como um pequeno triângulo do grande queijo da História do Teatro, mas que em si mesma constituiu um queijo uno e independente, no fundo é o queijo dentro do queijo ou seja o princípio do infinito. Dentro desse triângulo há muitas vezes um outro que se mostra sendo o teatral assumido e que faz com que o "grande queijo" pareça igual à vida. A coisa que mais me interessa neste formato é o escancarar as cenas ao espectador/leitor e o mostrar a sua construção sem qualquer espécie de teatrice, pois acredito que só desta forma é possível que o texto de teatro contemporâneo comunique directamente com a estrutura cénica e com os possíveis espectadores.
No que diz respeito a este tipo de queijo/texto, acredito que continue a servir de ratoeira para apanhar alguns espectadores mais conservadores. O queijo vem bem embalado, igualzinho a qualquer outro. Portanto, só o podem cheirar depois de aberto.
Pois para mim, deixemos o teatro ao quadrado e passemos a escrever e a criar o dentro, ou seja o assumir completamente a não teatralidade, o aqui e o agora. Olhar para os actores e escrever para pessoas reais que existem na cena. As personagens já morreram. Bom, mas nem todos os queijos agradam a toda a gente, eu cá sei bem do que gosto.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


a dentura da avó tirou férias na ceia de natal
oh fiha
o bacalhau é tenrinho e as batatas esmagam-se com as couves

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

escrevo linhas

tenho a sensação de me ter visto nas palavras escritas

procurei nos pensamentos que não consegui apaziguar
o vocabulário certo
será que existe?
e tive medo de ver no teclado só o alfabeto desorganizado

será que sou uma espécie de citador online?
ai esta incapacidade de dizê-lo bem

por isso escrevo
escrevo
porque dos dedos pingam algarismos
quantidades de ternura
volumes de corpos
em nudez absoluta
porque ver-me em aglomerados pontinhos pretos é olhar para mim despida ao espelho

tão nua
jamais verei fotográfica
a imagem de mim

sou amor
apenas isso
a mor
aquela que é

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

cruxificação branca-Marc Chagall







afinal sou um



pisca-polos



à procura da voltagem certa



entre carrinhos de compras



e cheques passados



carecas







quando for velha vou ser um pisca-pisca armado num pinheiro escandinavo
























domingo, 20 de dezembro de 2009

falência imunitária

(banhistas de Pablo Picasso-1922)
ter febre é estar muito quentinho no corpo todo e ter as palavras a pairar não dentro, mas à volta da cabeça. tudo nos passa ao lado, entre termómetros e chazinhos terapêuticos, desde que nos deixem praticar aquele desporto meditativo horizontal, a vida parece ter voltado ao seu estado mais essencial e puro: não pensar.


a linha cinzenta metálica ultrapassa os 39ºc. está deitada no sofá da mãe e começa a dizer palavras desconexas, coisas que já aconteceram na sua cabeça e para si são iguais às que aconteceram na vida. a mãe corre para o quarto-de-banho e começa a encher a banheira com água fria. tenta convencê-la a despir-se para entrar nela, mas a filha está febril de alegria e ri-se, gargalha perante a possibilidade de entrar para aquilo que, em seu entender, é uma piscina. vai direita ao quarto e arranca o pijama do corpo, depois põe na cabeça a touca de natação e faz aquecimento de pernas e coluna. entra no quarto-de-banho, diz, estou pronta e mergulha a cabeça e só a cabeça na água fria. a mãe que ficara atónita perante tão estranha figura, ralha-lhe o disparate e vai buscar um toalhão para lhe pôr por cima. volta então para o sofá e diz: a islândia é fabulosa. pena estar falida.
















































sábado, 19 de dezembro de 2009

sir matias



Conhecemo-nos em Sintra. Eu andava a tentar mudar de profissão, sem sequer dar bem por isso, e tu estavas a cumprir pena, infelizmente sem prazo de soltura à vista. Não trocámos correspondência, nem números de telemóvel. Vimo-nos e apaixonámo-nos. Eu que nunca acreditei no amor somente pela empatia visual, fui obrigada a engolir-te pelos olhos logo no primeiro encontro. Ia à procura de uma criatura ainda nova, que se acostumasse rapidamente às manias de um par de donos com profissões liberais (leia-se disfuncionais) e saiste-me tu na rifa do amor canino. Tu, com 30 kg de euforia no lombo, um hiperactivo das jaulas (sempre achei mais apropriado dizer terrorista) e já com um ano de existência que na realidade equivalia a sete.

Alguém se fartou de ti. Foi isso. Tiveste graça enquanto foste igualzinho ao do anúncio, mas depois as tuas bostas de quilo e meio não são nada glamourosas. Vinhas triste e nervoso, mas mal entraste no carro sentaste-te no banco ao lado do meu e encostaste tranquilo a cabeça ao meu ombro. Eu que vinha de óculos escuros e que mal te conhecia, tive que desembaciar os olhos. A primeira refeição que fizeste lá em casa foram umas lâmpadas que ainda estavam embaladas, foi aí que eu percebi a razão da nossa empatia imediata: sir matias, era um ser iluminado.