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segunda-feira, 28 de dezembro de 2009



Ana é a minha amiga capicua. Nasceu um mês depois de mim, mas é mais alta e tem mais cabelos brancos. Ana é silenciosa, sensata e bonita. Dormimos muitas vezes juntas e ela costumava ficar a olhar para mim enquanto adormecia. Às vezes tinha medo.

Vejo nela o meu crescimento e o meu envelhecimento. Ana é um espelho da minha imagem, porque nela consigo ver o que já fui, o que sou agora e que afinal é tudo a mesma coisa. As primeiras rugas: a nossa cara está a ficar amarrotada pelos dias que passam. Não nos vemos muito, apesar de morarmos perto. Não sei se penso nela, se me lembro dela, acho que faz parte de mim de uma forma intrínseca, como uma irmã. Foi nela que nasceu para mim a palavra ternura, um sentimento pueril que senti existir entre nós.

Um dia, bebemos demais e ficámos deitadas num passeio a tirar fotografias conjuntas e a rir. Caladas. Como no dia em que fiquei na sua casa a chorar no quarto ao lado do dela por já ser tão grande. Chamo-lhe amiga capicua pelo enigma que representam os seus olhos e por ser igual estar perto dela no principio e suponho que no fim das coisas.

chá

pretexto para trocarmos risos de açúcar

em cor-de-rosa sentadas

somos mulheres a segredar desejos

com medo de crescermos mais que os sapatos


de tesão

barram-se os scones

quentinhos

e as migalhas ficam presas nos dentes

os cigarros vão queimando no cinzeiro

deixando cinza e fumo

o aquecimento está ligado


não há silêncios

nunca

as palavras circulam de boca em boca

vivas

excepto quando se sopra e se leva

a chávena à boca


sábado, 26 de dezembro de 2009

o queijo dentro do queijo ou o paralelo infinito


O teatro dentro do teatro é um queijo cuja sobredosagem poderá provocar alzheimer nos seus consumidores, pois segundo a tradição o seu consumo excessivo resulta em esquecimento. É um produto muito fabricado e consumido, mas dada a sua digestão dificil e o alto índice de gordura latente é como comer uma coisa que já sabemos que é boa mas que nos cai mal, embora a comamos sempre que se nos depara diante nós. Cada peça de teatro é apenas como um pequeno triângulo do grande queijo da História do Teatro, mas que em si mesma constituiu um queijo uno e independente, no fundo é o queijo dentro do queijo ou seja o princípio do infinito. Dentro desse triângulo há muitas vezes um outro que se mostra sendo o teatral assumido e que faz com que o "grande queijo" pareça igual à vida. A coisa que mais me interessa neste formato é o escancarar as cenas ao espectador/leitor e o mostrar a sua construção sem qualquer espécie de teatrice, pois acredito que só desta forma é possível que o texto de teatro contemporâneo comunique directamente com a estrutura cénica e com os possíveis espectadores.
No que diz respeito a este tipo de queijo/texto, acredito que continue a servir de ratoeira para apanhar alguns espectadores mais conservadores. O queijo vem bem embalado, igualzinho a qualquer outro. Portanto, só o podem cheirar depois de aberto.
Pois para mim, deixemos o teatro ao quadrado e passemos a escrever e a criar o dentro, ou seja o assumir completamente a não teatralidade, o aqui e o agora. Olhar para os actores e escrever para pessoas reais que existem na cena. As personagens já morreram. Bom, mas nem todos os queijos agradam a toda a gente, eu cá sei bem do que gosto.

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009


a dentura da avó tirou férias na ceia de natal
oh fiha
o bacalhau é tenrinho e as batatas esmagam-se com as couves

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

escrevo linhas

tenho a sensação de me ter visto nas palavras escritas

procurei nos pensamentos que não consegui apaziguar
o vocabulário certo
será que existe?
e tive medo de ver no teclado só o alfabeto desorganizado

será que sou uma espécie de citador online?
ai esta incapacidade de dizê-lo bem

por isso escrevo
escrevo
porque dos dedos pingam algarismos
quantidades de ternura
volumes de corpos
em nudez absoluta
porque ver-me em aglomerados pontinhos pretos é olhar para mim despida ao espelho

tão nua
jamais verei fotográfica
a imagem de mim

sou amor
apenas isso
a mor
aquela que é

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

cruxificação branca-Marc Chagall







afinal sou um



pisca-polos



à procura da voltagem certa



entre carrinhos de compras



e cheques passados



carecas







quando for velha vou ser um pisca-pisca armado num pinheiro escandinavo
























domingo, 20 de dezembro de 2009

falência imunitária

(banhistas de Pablo Picasso-1922)
ter febre é estar muito quentinho no corpo todo e ter as palavras a pairar não dentro, mas à volta da cabeça. tudo nos passa ao lado, entre termómetros e chazinhos terapêuticos, desde que nos deixem praticar aquele desporto meditativo horizontal, a vida parece ter voltado ao seu estado mais essencial e puro: não pensar.


a linha cinzenta metálica ultrapassa os 39ºc. está deitada no sofá da mãe e começa a dizer palavras desconexas, coisas que já aconteceram na sua cabeça e para si são iguais às que aconteceram na vida. a mãe corre para o quarto-de-banho e começa a encher a banheira com água fria. tenta convencê-la a despir-se para entrar nela, mas a filha está febril de alegria e ri-se, gargalha perante a possibilidade de entrar para aquilo que, em seu entender, é uma piscina. vai direita ao quarto e arranca o pijama do corpo, depois põe na cabeça a touca de natação e faz aquecimento de pernas e coluna. entra no quarto-de-banho, diz, estou pronta e mergulha a cabeça e só a cabeça na água fria. a mãe que ficara atónita perante tão estranha figura, ralha-lhe o disparate e vai buscar um toalhão para lhe pôr por cima. volta então para o sofá e diz: a islândia é fabulosa. pena estar falida.