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sábado, 23 de janeiro de 2010


caminhar matinalmente, desde o cais do sodré até ao príncipe real, (subindo plas ruelas do bairro alto) é simplesmente encantador.
ao contrário das impressões peganhentas das idas nocturnas a estas zonas, à luz do dia vemos a sujidade, mas o bairrismo lisboeta de roupa estendida a cheirar a sabão, ganha protagonismo. é certo que (à semelhança da noite), recebemos uns piropos parolos (mas ao menos são sóbrios) de tipos agachados a olhar para o vazio e ouvimos uns berros entre as vizinhas, de resto, estes são os únicos riscos que corremos. ah, e ficamos com cãibras nas pernas por causa das subidas íngremes.
gosto do bairro alto de dia, mais que de noite. da lisboa suja nas paredes. suja por fora, explícita. ainda cheira a vinho entornado no chão, mas já se sente a fruta nas mercearias e o cheiro a mijo de cão. mais do que o de pessoa. e isso é bom.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desencanto doméstico ou como lavar o poema


o poema é um bloco uniforme de letras atirado contra a folha. o poema é um tijolo, forte, denso, onde o espaço em branco não tem lugar, nem a pausa, nem a respiração. viva o poema com uma única camada! é como um placard sem costas, não permite profundidade visual. há ainda no poema uma coisa interessante: a progressão do sujeito poético que se vê errante e a entrar na zona do desconhecido. a errância é fundamental para criarmos caminhos ou limparmos a casa. do poema.

o poema é um super-homem.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Presença




Ter luz na cara não é algo que se providencie com projectores. Muitos dos artistas das artes de cena têm a capacidade de iluminar-se de dentro para fora. Têm aquilo a que se chama de presença, bolha, luz, enfim, uma data de rotulações que apenas querem dizer que aquela pessoa existe mais do que as outras. Ter luz é estar presente, apenas isso. E assumir as turbulências interiores como água.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010



pessoas bonitas


lavadas e


penteadas


com bujigangas ao pescoço


são as minhas favoritas




e se forem ricas


ainda melhor


adiciono-as logo


nos meus contactos




sempre tive um franquinho por arrumadores



sobretudo os que ainda têm dentes

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


a senhora, senta-se à secretária para escrever palavrinhas. os dedos no teclado têm uma certa autonomia, desde que alinhados formalmente, numa espécie de exército combatendo a inércia. nao há nada pior do que a preguiça. só vale espreguiçar pecados. faz bem à pele.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

como limpar um globo de ouro?



Ganhar uma estatueta dourada para pôr em cima de um naperon, é o sonho de muita gente. É o reconhecimento pelo trabalho, mais alguma/muita sorte. Para além disso, estas estatuetas são uma arma de arremesso, pois segundo sei, são feitas de ferro maciço e nunca se sabe se as poderemos usar para despachar alguma visita indesejada. Aquilo que sempre me intrigou é: como limpar um globo de ouro? O detergente Pronto é só para madeiras e o Ajax para os vidros, já o líquido próprio para metais é capaz de derreter a cobertura dourada que reveste o globo, por isso, penso que estes troféus limpam-se apenas com o sopro. tal como se faz com a limpeza feita à pressão. Sopra-se com muita, muita força. E é preciso fé, para que ninguém note que afinal a coisa, não está assim muito limpa.