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domingo, 24 de janeiro de 2010

french kiss


nunca percebi o paradoxo da tradução inglesa: beijo francês. se os próprios franceses não dizem bisou français, nem o têm como pantente registada, porque razão os americanos rotulam de francesa, uma coisa tão orgânica como beijar com a língua? e o paradoxo está precisamente em dizê-lo na língua inglesa.
como é então o american kiss? ou o brasilian kiss? e será que o swedish kiss é apelidado de ikea kiss com sabor a almôndegas? em português, o linguado é um termo pescatório, por causa da proximidade ao mar ou apenas pela quantidade de portugueses que não tem a saúde dentária em dia? a verdade, é que os dentes pobres cheiram a peixe estragado, podre, já para não falar na analogia do bacalhau, pois é evidente a ligação a sexos mal lavados. Enfim, somos de facto um povo, virado para as coisas do mar.
curiosamente, o rapaz a quem dei o primeiro linguado (aos seis anos de idade), chamava-se sardinha (não porque cheirasse a peixe, só porque era estúpido que nem um carapau). E lembro-me perfeitamente de lhe ter dito que fosse lavar os dentes, porque me meteu um bocado de nojo a saliva alheia.

sábado, 23 de janeiro de 2010


caminhar matinalmente, desde o cais do sodré até ao príncipe real, (subindo plas ruelas do bairro alto) é simplesmente encantador.
ao contrário das impressões peganhentas das idas nocturnas a estas zonas, à luz do dia vemos a sujidade, mas o bairrismo lisboeta de roupa estendida a cheirar a sabão, ganha protagonismo. é certo que (à semelhança da noite), recebemos uns piropos parolos (mas ao menos são sóbrios) de tipos agachados a olhar para o vazio e ouvimos uns berros entre as vizinhas, de resto, estes são os únicos riscos que corremos. ah, e ficamos com cãibras nas pernas por causa das subidas íngremes.
gosto do bairro alto de dia, mais que de noite. da lisboa suja nas paredes. suja por fora, explícita. ainda cheira a vinho entornado no chão, mas já se sente a fruta nas mercearias e o cheiro a mijo de cão. mais do que o de pessoa. e isso é bom.

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Desencanto doméstico ou como lavar o poema


o poema é um bloco uniforme de letras atirado contra a folha. o poema é um tijolo, forte, denso, onde o espaço em branco não tem lugar, nem a pausa, nem a respiração. viva o poema com uma única camada! é como um placard sem costas, não permite profundidade visual. há ainda no poema uma coisa interessante: a progressão do sujeito poético que se vê errante e a entrar na zona do desconhecido. a errância é fundamental para criarmos caminhos ou limparmos a casa. do poema.

o poema é um super-homem.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Presença




Ter luz na cara não é algo que se providencie com projectores. Muitos dos artistas das artes de cena têm a capacidade de iluminar-se de dentro para fora. Têm aquilo a que se chama de presença, bolha, luz, enfim, uma data de rotulações que apenas querem dizer que aquela pessoa existe mais do que as outras. Ter luz é estar presente, apenas isso. E assumir as turbulências interiores como água.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010



pessoas bonitas


lavadas e


penteadas


com bujigangas ao pescoço


são as minhas favoritas




e se forem ricas


ainda melhor


adiciono-as logo


nos meus contactos




sempre tive um franquinho por arrumadores



sobretudo os que ainda têm dentes

terça-feira, 19 de janeiro de 2010


a senhora, senta-se à secretária para escrever palavrinhas. os dedos no teclado têm uma certa autonomia, desde que alinhados formalmente, numa espécie de exército combatendo a inércia. nao há nada pior do que a preguiça. só vale espreguiçar pecados. faz bem à pele.