
já fui ver ao dicionário
e até chorei
nunca pensei que fosse aquilo e aquilo matou-me
a sério
afinal estava enganada
dois turnos por dia dois turnos
e isto para quê?
devia ter fodido mais
já bebia um copo e depois saía daqui
eu saía daqui se conseguisse
eu é que não posso
não consigo não consigo não consigo
devia ter visto mais definições agora ainda não sei nada
mas também andamos todos ao mesmo
fim
com minúscula
do latim fine
singular masculino
termo limite remate alvo finalidade intenção morte
em conclusão para terminar finalmente por último finalmente
o que fazer agora? o que fazer?
Lídia in Poltrona- Monólogo para uma Mulher de Cláudia Lucas Chéu
Existe algum momento que represente melhor o fluxo, do que o acto sexual solitário ou acompanhado? Penso que não. A forma de acedermos ao inconsciente é através da líbido, por isso um artista que funciona em fluxo, usa muito mais o corpo do que a mente. Também o cérebro é um orgão real, concreto e as ideias surgem de choques eléctricos entre as veias, tal como as sílabas que imprimimos no papel, inconscientes do momento da criação. O cérebro também é corpo. O corpo, sobretudo numa sociedade de consumo representa-se pelo sexo e não pelas relações, expressa a analogia entre a troca comercial e a sexual, que na nossa contemporaneidade, é a mesma coisa. O meu corpo é um objecto de troca, o meu sexo vale tanto como o meu cérebro, porque tudo é objectificado. Eis alguns dos príncipios primários: comer e foder. Em ambos, é também vísivel uma organicidade do racíocinio e a isso chamo fluxo. Longe de ser um racíocinio narrativo (pois a memória não funciona assim), o nosso cérebro é associativo ao criar. Os objectos associam-se de forma espontânea, orgânica. Falemos da revolução que não nos deixa livres no mundo e da guerra de estar fechado numa cozinha. Uma e outra falam do mesmo. O artista contemporâneo está em guerra com o corpo e em revolução com as palavras. Que avancem, ambas. Não queremos continuar enclausurados no onanismo.




