
o trânsito a andar e ele a conduzir com a ponta dos dedos. só com a pontas dos dedos. um taxista sensível, pensei, delicado. tinha um gorro verde de lã enfiado pela cabeça abaixo, um cachecol e um kispo, apesar do ar condicionado ligado no quente. não estava frio, sequer. o rádio do carro, desligado e ele lá ia acelerando pelo silêncio da cidade. eu ia sentada atrás, calada, a observar esta criatura toda tapada de lãs, que agarrava o volante na ponta dos dedos.
depois, o trânsito começou a entupir as vias e o taxista sensível, olhou para mim pelo espelho retrovisor. "as unhas estão a cair-me" e eu nada. "estive em quimioterapia durante um ano, mas tenho que trabalhar" e eu, pois. "tenho dois filhos: um com quatro e outro com doze e uma mulher com menopausa na cabeça" e eu, isso é que é pior. "o que mais me custou foi ver o pequenino a olhar para mim e a perguntar-me porque é que eu estava careca" e eu, silêncio absoluto, a olhá-lo nos olhos plo retrovisor. e ele a encher-se de lágrimas no abismo do olhar. e eu a apertar os dedos contra a napa do banco.
deixou-me à porta de casa. não pus a chave na fechadura. fui à mercearia comprar pão.

Existe algum momento que represente melhor o fluxo, do que o acto sexual solitário ou acompanhado? Penso que não. A forma de acedermos ao inconsciente é através da líbido, por isso um artista que funciona em fluxo, usa muito mais o corpo do que a mente. Também o cérebro é um orgão real, concreto e as ideias surgem de choques eléctricos entre as veias, tal como as sílabas que imprimimos no papel, inconscientes do momento da criação. O cérebro também é corpo. O corpo, sobretudo numa sociedade de consumo representa-se pelo sexo e não pelas relações, expressa a analogia entre a troca comercial e a sexual, que na nossa contemporaneidade, é a mesma coisa. O meu corpo é um objecto de troca, o meu sexo vale tanto como o meu cérebro, porque tudo é objectificado. Eis alguns dos príncipios primários: comer e foder. Em ambos, é também vísivel uma organicidade do racíocinio e a isso chamo fluxo. Longe de ser um racíocinio narrativo (pois a memória não funciona assim), o nosso cérebro é associativo ao criar. Os objectos associam-se de forma espontânea, orgânica. Falemos da revolução que não nos deixa livres no mundo e da guerra de estar fechado numa cozinha. Uma e outra falam do mesmo. O artista contemporâneo está em guerra com o corpo e em revolução com as palavras. Que avancem, ambas. Não queremos continuar enclausurados no onanismo.



