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quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

incorpóreo


vi no écran
o que era um papel


não quis acreditar na brancura
fluorescente
desta cor


disseram-me que vinha de dentro
esta luz
mas não entendo
eu apenas carreguei no on

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


O hipertexto é uma colcha de duas fases, reversível consoante o gosto de quem a usa, um patchwork em progressão. E como uma colcha, é também extensível conforme o cliente que se tapa. Não está preso ao colchão, não se entalam as pontas, pois por elas se poderão puxar caso haja acomodações de última hora. O texto cibernético, é uma espécie de secção do IKEA, onde as mantas se amontoam (passo o pleonasmo) e parecendo todas iguais têm um número de série que as distingue. As prateleiras estão organizadas por mantas, só que à semelhança das redes, não sabemos onde é o príncipio e o fim.
A irreversibilidade está destinada apenas ao livro impresso na 1ª edição e à retrosaria (extinta) da esquina.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010





não me pula o pé




para certas coisas










carraças de bichos




e jogos da macaca mal desenhados a giz




no alcatrão




em ruas sem carros








não me pula o pé




para sapatos de fivela apertados




e




unhas das mãos pintadas de rosa choque








pula-me




pula-me




água salgada




fria




a bater de chapão no peito nu e andar por ruas estreitas e sujas.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

domingo, 7 de fevereiro de 2010


o trânsito a andar e ele a conduzir com a ponta dos dedos. só com a pontas dos dedos. um taxista sensível, pensei, delicado. tinha um gorro verde de lã enfiado pela cabeça abaixo, um cachecol e um kispo, apesar do ar condicionado ligado no quente. não estava frio, sequer. o rádio do carro, desligado e ele lá ia acelerando pelo silêncio da cidade. eu ia sentada atrás, calada, a observar esta criatura toda tapada de lãs, que agarrava o volante na ponta dos dedos.

depois, o trânsito começou a entupir as vias e o taxista sensível, olhou para mim pelo espelho retrovisor. "as unhas estão a cair-me" e eu nada. "estive em quimioterapia durante um ano, mas tenho que trabalhar" e eu, pois. "tenho dois filhos: um com quatro e outro com doze e uma mulher com menopausa na cabeça" e eu, isso é que é pior. "o que mais me custou foi ver o pequenino a olhar para mim e a perguntar-me porque é que eu estava careca" e eu, silêncio absoluto, a olhá-lo nos olhos plo retrovisor. e ele a encher-se de lágrimas no abismo do olhar. e eu a apertar os dedos contra a napa do banco.

deixou-me à porta de casa. não pus a chave na fechadura. fui à mercearia comprar pão.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010




já fui ver ao dicionário



e até chorei


nunca pensei que fosse aquilo e aquilo matou-me




a sério



afinal estava enganada



dois turnos por dia dois turnos





e isto para quê?





devia ter fodido mais



já bebia um copo e depois saía daqui



eu saía daqui se conseguisse



eu é que não posso



não consigo não consigo não consigo




devia ter visto mais definições agora ainda não sei nada


mas também andamos todos ao mesmo


fim

com minúscula

do latim fine

singular masculino

termo limite remate alvo finalidade intenção morte

em conclusão para terminar finalmente por último finalmente


o que fazer agora? o que fazer?





Lídia in Poltrona- Monólogo para uma Mulher de Cláudia Lucas Chéu

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O onanismo é a nova geografia do mundo?

Existe algum momento que represente melhor o fluxo, do que o acto sexual solitário ou acompanhado? Penso que não. A forma de acedermos ao inconsciente é através da líbido, por isso um artista que funciona em fluxo, usa muito mais o corpo do que a mente. Também o cérebro é um orgão real, concreto e as ideias surgem de choques eléctricos entre as veias, tal como as sílabas que imprimimos no papel, inconscientes do momento da criação. O cérebro também é corpo. O corpo, sobretudo numa sociedade de consumo representa-se pelo sexo e não pelas relações, expressa a analogia entre a troca comercial e a sexual, que na nossa contemporaneidade, é a mesma coisa. O meu corpo é um objecto de troca, o meu sexo vale tanto como o meu cérebro, porque tudo é objectificado. Eis alguns dos príncipios primários: comer e foder. Em ambos, é também vísivel uma organicidade do racíocinio e a isso chamo fluxo. Longe de ser um racíocinio narrativo (pois a memória não funciona assim), o nosso cérebro é associativo ao criar. Os objectos associam-se de forma espontânea, orgânica. Falemos da revolução que não nos deixa livres no mundo e da guerra de estar fechado numa cozinha. Uma e outra falam do mesmo. O artista contemporâneo está em guerra com o corpo e em revolução com as palavras. Que avancem, ambas. Não queremos continuar enclausurados no onanismo.