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quinta-feira, 11 de março de 2010




batalhar com os olhos postos na luz


nunca nada foi tão claro


sou uma pianista das letras


executo composições


partituras


vindas de muitas partes
e algumas
da minha cabeça

quarta-feira, 10 de março de 2010


não te sentes no lugar do pendura

o volante é teu

guia

terça-feira, 9 de março de 2010



oito de março. vejo neste dia a obrigatoriedade de felicitar as mulheres pelos feitos conseguidos. ainda precisamos de um dia só para dizer isto? e se há tanta coisa em portugal que dá direito a feriado, como a república, todos os santos ou coisas que nem sabemos bem o que sejam, não merecemos nós uma pausa a sério? se é para ser de facto um dia comemorável, decretem feriado e deitem-nos nas palhinhas nuas, com incenso, mirra e ouro.

segunda-feira, 8 de março de 2010



Dois palmos de língua e um cansaço pendente na trela. Afinal morrer é isto. O cão urina na perna do rapaz que observa ainda a quente, a sua morte no passeio estendida. Lá segue o nórdico canino livremente a vida, sem casota nem dono, procurando apenas uma fêmea que o console. O rapaz espera o resgate divino, mas só lhe aparece um velha e uma bengalada na costas. Drogados! - exclama a alma desdentada e segue o carreiro do cão, zuca zuca, apoiada nas três patas. Mas eis que tudo se transforma quando um rapaz amigo, o amigo deste rapaz, se lembra do célebre boca a boca, cuja saliva é aqui substituida, por uma coca-cola de lata. O milagre do capitalismo! Que grande e temível excitação: começam então a chover dólares em Vila do Conde e o rapaz ressuscitado do casual estrangulamento, põe-se a imigar pensamentos alheios, em vez de pôr notas ao bolso. Agarra-se com dentes e unhas às efabulações dos vizinhos e percebe que alguns são dementes, pois guardam nas despensas interiores material subversivo, maços de notas e detergentes. O melhor será estrangular-se novamente, ouvir vozes é coisa de gente doente. Lá procura então plo canino berlinense, o letal agressor antigo, mas depois de muito percorrer, chega à conclusão que o melhor será esperar e crescer. Deitar-se apenas na cama. Para rapaz, já pensa demais. E pumba, cai-lhe o tecto do quarto. Em cima.

domingo, 7 de março de 2010



dava-me jeito agora um colo
ou alguém que me ajude a pagar a renda
ui que já estou a descompensar
estou tão perto da perfeição
a um triz de um ataque de pânico
e tenho estes cabo de aço na mão
posso telefonar-te? deixa-me telefonar-te
ficas a escutar do outro lado e dizes sim e não e brincas à psicanálise comigo
dói-me a cabeça outra vez esta dor que não passa e eu quero tragédia não quero drama



in Poltrona - monólogo para uma mulher de Cláudia Lucas Chéu

quinta-feira, 4 de março de 2010


tenho música empoleirada na infância


e imagens vagas no abismo da idade adulta

quarta-feira, 3 de março de 2010


uma andorinha não faz alergias

há cacau quente pra beber

e torresmos no pão

tchim tchim

ergo na imaginação lareiras a arder

à nossa

inverno interminável