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segunda-feira, 22 de março de 2010


Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro.
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."

domingo, 14 de março de 2010


apaga-se a luz

finita la comédia


passos a fechar a porta do teatro

música

a banda no coreto anuncia a próxima viagem





sexta-feira, 12 de março de 2010



privatizem-me


as pernas


as orelhas os pés a nuca


e os cabelos púbicos




privatizem-me


e trespassem-me depois a alguém estrangeiro


por uma ninharia me deixo privatizar




sou uma edp


endividada


uma epal com problemas de canalização






vendam-me


discutimos depois o preço


sou barata

quinta-feira, 11 de março de 2010




batalhar com os olhos postos na luz


nunca nada foi tão claro


sou uma pianista das letras


executo composições


partituras


vindas de muitas partes
e algumas
da minha cabeça

quarta-feira, 10 de março de 2010


não te sentes no lugar do pendura

o volante é teu

guia

terça-feira, 9 de março de 2010



oito de março. vejo neste dia a obrigatoriedade de felicitar as mulheres pelos feitos conseguidos. ainda precisamos de um dia só para dizer isto? e se há tanta coisa em portugal que dá direito a feriado, como a república, todos os santos ou coisas que nem sabemos bem o que sejam, não merecemos nós uma pausa a sério? se é para ser de facto um dia comemorável, decretem feriado e deitem-nos nas palhinhas nuas, com incenso, mirra e ouro.

segunda-feira, 8 de março de 2010



Dois palmos de língua e um cansaço pendente na trela. Afinal morrer é isto. O cão urina na perna do rapaz que observa ainda a quente, a sua morte no passeio estendida. Lá segue o nórdico canino livremente a vida, sem casota nem dono, procurando apenas uma fêmea que o console. O rapaz espera o resgate divino, mas só lhe aparece um velha e uma bengalada na costas. Drogados! - exclama a alma desdentada e segue o carreiro do cão, zuca zuca, apoiada nas três patas. Mas eis que tudo se transforma quando um rapaz amigo, o amigo deste rapaz, se lembra do célebre boca a boca, cuja saliva é aqui substituida, por uma coca-cola de lata. O milagre do capitalismo! Que grande e temível excitação: começam então a chover dólares em Vila do Conde e o rapaz ressuscitado do casual estrangulamento, põe-se a imigar pensamentos alheios, em vez de pôr notas ao bolso. Agarra-se com dentes e unhas às efabulações dos vizinhos e percebe que alguns são dementes, pois guardam nas despensas interiores material subversivo, maços de notas e detergentes. O melhor será estrangular-se novamente, ouvir vozes é coisa de gente doente. Lá procura então plo canino berlinense, o letal agressor antigo, mas depois de muito percorrer, chega à conclusão que o melhor será esperar e crescer. Deitar-se apenas na cama. Para rapaz, já pensa demais. E pumba, cai-lhe o tecto do quarto. Em cima.