diz-me qual é o ângulo morto da nossa estratégia romântica
não te apanho pelo retrovisor
nem virando o pescoço
a minha visão periférica não alcança o teu corpo
diz-me
qual é o ângulo vivo
e eu mudo de posição
sexta-feira, 26 de março de 2010
não leias significados
vê apenas palavras que vibram em contacto umas com as outras
impressões masturbando-se conjuntamente
as letras não significam porra nenhuma
são apenas folhas de papel sujas
lê as sílabas como números
algarismos abstractos de tinta
não está lá mais nada
concentra-te a ler cabeças
é essa pasta que interessa
a obra prima desta coisa que se chama natureza vida e tudo
quinta-feira, 25 de março de 2010
brecht a escrever
palavras viradas para este
a luz inunda a sala vazia
chapão de espanto
lá fora o cemitério silencioso
aguarda a sua chegada
no piso de baixo
na cozinha
a prima dona do teatro
fazendo doces
iguarias raras
e no quarto incomum
o charuto pinga cinzas na urna
quarta-feira, 24 de março de 2010
envelhecer é aloirar os cabelos
e ter sardas nas costas das mãos
hoje vi a velhice a folhear westerns de bolso no banco do fundo de um eléctrico
terça-feira, 23 de março de 2010
hamlet comendo terra
batatas fritas
vinho branco
e cigarros ao relento
hamlet comendo terra
molhada
da mangueira esguicha chuva
hip hop a tocar
na familia
óculos escuros
graduados
tentativa de zoom na televisão
da alma
hamlet cuspindo terra
arlequim de palavras
disparadas alto ao microfone
segunda-feira, 22 de março de 2010
Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro. A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido: " Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."