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segunda-feira, 29 de março de 2010

quero pensar na perfeição que não atingirei


e no riso do fracasso visto de cima para baixo





quero rir-me das teorias vendidas em receitas


e das contas em euros e bens partilhados





rir de boca aberta


num esgar


misto de cinismo e vontade


ah ah ah pujante





não há nada melhor do que o riso com os dentes todos expostos


mesmo cariados ou implantados vários


mesmo sem brancura


rir é mostrar os dentes todos


e atirar ar de volta ao espaço

sábado, 27 de março de 2010


diz-me qual é o ângulo morto da nossa estratégia romântica

não te apanho pelo retrovisor


nem virando o pescoço


a minha visão periférica não alcança o teu corpo

diz-me

qual é o ângulo vivo

e eu mudo de posição

sexta-feira, 26 de março de 2010



não leias significados


vê apenas palavras que vibram em contacto umas com as outras


impressões masturbando-se conjuntamente


as letras não significam porra nenhuma


são apenas folhas de papel sujas




lê as sílabas como números


algarismos abstractos de tinta


não está lá mais nada




concentra-te a ler cabeças


é essa pasta que interessa


a obra prima desta coisa que se chama natureza vida e tudo

quinta-feira, 25 de março de 2010


brecht a escrever

palavras viradas para este

a luz inunda a sala vazia

chapão de espanto

lá fora o cemitério silencioso

aguarda a sua chegada


no piso de baixo

na cozinha

a prima dona do teatro

fazendo doces

iguarias raras


e no quarto incomum

o charuto pinga cinzas na urna

quarta-feira, 24 de março de 2010


envelhecer é aloirar os cabelos

e ter sardas nas costas das mãos


hoje vi a velhice a folhear westerns de bolso no banco do fundo de um eléctrico

terça-feira, 23 de março de 2010


hamlet comendo terra


batatas fritas

vinho branco

e cigarros ao relento


hamlet comendo terra

molhada

da mangueira esguicha chuva

hip hop a tocar


na familia

óculos escuros

graduados

tentativa de zoom na televisão

da alma


hamlet cuspindo terra

arlequim de palavras

disparadas alto ao microfone


segunda-feira, 22 de março de 2010


Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro.
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."