quero pensar na perfeição que não atingirei
e no riso do fracasso visto de cima para baixo
quero rir-me das teorias vendidas em receitas
e das contas em euros e bens partilhados
rir de boca aberta
num esgar
misto de cinismo e vontade
ah ah ah pujante
não há nada melhor do que o riso com os dentes todos expostos
mesmo cariados ou implantados vários
mesmo sem brancura
rir é mostrar os dentes todos
e atirar ar de volta ao espaço
segunda-feira, 29 de março de 2010
sábado, 27 de março de 2010
sexta-feira, 26 de março de 2010

não leias significados
vê apenas palavras que vibram em contacto umas com as outras
impressões masturbando-se conjuntamente
as letras não significam porra nenhuma
são apenas folhas de papel sujas
lê as sílabas como números
algarismos abstractos de tinta
não está lá mais nada
concentra-te a ler cabeças
é essa pasta que interessa
a obra prima desta coisa que se chama natureza vida e tudo
quinta-feira, 25 de março de 2010
quarta-feira, 24 de março de 2010
terça-feira, 23 de março de 2010
segunda-feira, 22 de março de 2010

Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro.
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."
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