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terça-feira, 13 de abril de 2010


A luz pendente da estação de serviço assobia um som nocturno e agudo. Cheira a gasolina, a after-shave e mentol. Ele está fechado no ford verde escuro a fumar de vidro entreaberto, enquanto espera a chegada dela na sua velha scooter, cai silenciosa a cacimba. Ouve-se ao longe o som da motorizada. Ele abre a porta do velho ford e esmaga a beata com o pé. Fecha a porta e depois sobe a nesga vidro, fechando-o. Sintoniza o rádio. Pára na clássica, algures no ínicio da paixão de s. mateus de bach. Ela estaciona a mota, longe do ford. Tira o capacete e sacode os caracóis louros escuros. Tap tap tap, os saltos a bater no alcatrão húmido. Aproxima-se dos vidros embaciados do ford e com o dedo médio desenha um coração.

segunda-feira, 12 de abril de 2010


Um fósforo a arder numa mão com luva branca. O bidão de gasolina despejado nos móveis ikea da sala. Labaredas várias a propagarem-se à velocidade da luz. O relógio de sala marca 7 horas. É Inverno. Passos na direcção da porta de saída. O espanta-espíritos agita-se. O vizinho a gritar. Dois vizinhos a gritar. Uma multidão de gente na rua. Sirenes a tocar. A moradia murcha devagar, derrete com o fogo. O telemóvel toca dentro do blusão na viagem de scooter. Ninguém ouve.

domingo, 11 de abril de 2010


ontem conheci o frederico lourenço. de pullover azul petróleo e calças em bege, tão gentil. falou-me da grécia antiga e das suas tragédias. fiquei encantada por comunicar olhos-nos-olhos com o mensageiro-mor da Odisseia.


"Agora compreendo."
- diz o protagonista desprevenido da tragédia. só é realmente trágico quem erra sem saber. a tragédia só está próxima do inocente.

sábado, 10 de abril de 2010


theatron = lugar para se olhar + com interesse



as fórmulas são receitas de culinária

boas para pôr no lixo

fora do tacho são apenas teorias

se ao menos levantassem problemas

a tampa

o texto



sexta-feira, 9 de abril de 2010


põe-te na fila para o mar
- diz a mãe à miúda que chora

põe-te na fila para o leite, mãe
deitas fervura por tudo e nada
afinal não estás azeda
como aquelas florzinhas amarelas que comi na primavera
antes das rinites alérgicas
fiz sexo no mato
e tirei fotografias
revelei-as publicamente

a natureza serve para fazermos analogias
comparamo-nos com tudo o que nos é distante

quinta-feira, 8 de abril de 2010


falso alarme

afinal o diplomata não fumou no avião

tentava incendiar os sapatos

só isso

foi escoltado pela razão

e apagou as tenras chamas

com vómito

quarta-feira, 7 de abril de 2010


quando a nossa cabeça se antipatiza por nós

não há ampolas que fertilizem alegria

só cortando a raíz na guilhotina

a maria antonieta não envelheceu deprimida


não sou o tipo de pessoa que anda com lenços de papel na mala