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segunda-feira, 19 de abril de 2010


tento evocar a vontade. ser actor também é isto, saber evocar a vontade, saber convocá-la. vontade de brincar, nem sempre a temos. às vezes calha-nos companheiros de brincadeira na cena de quem não gostamos. não sabem brincar, simplesmente desejam pavonear-se no palco, mas no fundo andámos todos à procura do mesmo, que gostem de nós. há um sentimento profundo inerente a todos os actores: ser amado. há quem diga que somos todos frutos de uma educação desatenta, com falhas de atenção na parte dos afectos, por isso queremos ir para cena, para que nos olhem enquanto tentamos mostrar o que de mais puro temos, através das palavras dos outros, mostrar o coração.

sábado, 17 de abril de 2010



aqui e agora
não há palavras que marquem o silêncio
nem a memória lembra quanto vale um minuto
sou um despertador electrónico
na casa de uma velha
tic tac tic tac
e tiro oxigénio da boca
salivo o dia
besunto-o de cuspo
o hoje é um bolo convertido a espaço
olho para o suor da minha blusa
como um ampulheta
o cansaço escorre das axilas
só o meu corpo marca a ruga
aqui e agora
sou um relógio aborrecido com o amor
só o fim é urgente
e o olhar troca-se devagarinho

quarta-feira, 14 de abril de 2010



amo-te




e pinga chuva


miudinha na minha cabeça


está escuro nos labirintos de plástico


e ouve-se shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh



chego por fim ao espelho redondo


mesmo antes de entrar no teu quarto de valium e aspirina


faltam naperons na cómoda e bugigangas baratas


tudo é luxuoso


fino




despenteias-me a meio da exposição


mostro os dentes


rio-me




amo-te


uma duas três quatro cinco seis sete oito nove vezes






terça-feira, 13 de abril de 2010


A luz pendente da estação de serviço assobia um som nocturno e agudo. Cheira a gasolina, a after-shave e mentol. Ele está fechado no ford verde escuro a fumar de vidro entreaberto, enquanto espera a chegada dela na sua velha scooter, cai silenciosa a cacimba. Ouve-se ao longe o som da motorizada. Ele abre a porta do velho ford e esmaga a beata com o pé. Fecha a porta e depois sobe a nesga vidro, fechando-o. Sintoniza o rádio. Pára na clássica, algures no ínicio da paixão de s. mateus de bach. Ela estaciona a mota, longe do ford. Tira o capacete e sacode os caracóis louros escuros. Tap tap tap, os saltos a bater no alcatrão húmido. Aproxima-se dos vidros embaciados do ford e com o dedo médio desenha um coração.

segunda-feira, 12 de abril de 2010


Um fósforo a arder numa mão com luva branca. O bidão de gasolina despejado nos móveis ikea da sala. Labaredas várias a propagarem-se à velocidade da luz. O relógio de sala marca 7 horas. É Inverno. Passos na direcção da porta de saída. O espanta-espíritos agita-se. O vizinho a gritar. Dois vizinhos a gritar. Uma multidão de gente na rua. Sirenes a tocar. A moradia murcha devagar, derrete com o fogo. O telemóvel toca dentro do blusão na viagem de scooter. Ninguém ouve.

domingo, 11 de abril de 2010


ontem conheci o frederico lourenço. de pullover azul petróleo e calças em bege, tão gentil. falou-me da grécia antiga e das suas tragédias. fiquei encantada por comunicar olhos-nos-olhos com o mensageiro-mor da Odisseia.


"Agora compreendo."
- diz o protagonista desprevenido da tragédia. só é realmente trágico quem erra sem saber. a tragédia só está próxima do inocente.

sábado, 10 de abril de 2010


theatron = lugar para se olhar + com interesse



as fórmulas são receitas de culinária

boas para pôr no lixo

fora do tacho são apenas teorias

se ao menos levantassem problemas

a tampa

o texto