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terça-feira, 4 de maio de 2010


O marido dela - desde que se casou que perdera a identidade e passara a ser apenas o companheiro de, o homem da - aproveitando o tempo do sono induzido na anafada esposa (através de ingredientes químicos postos no jantar), desceu devagar as escadas que o conduziam à cave e ao seu cúmplice. Debaixo do braço uma garrafa de whisky e dois copos, cumprindo o desejo de selar o negócio pela boca e pelas palavras. O fugitivo pouco dado a eventos sociais, emborcou de um trago um terço da garrafa, obviamente sem agradecer ao anfitrião: - "E é mesmo só isso o que queres? Olha que esta merda não é um filme, eu não sou gajo para brincadeiras. Eu finjo que te roubo a casa, tudo bem, mas e depois? Quanto é que calha aqui ao Zé?" - perguntou-lhe com lábios reluzindo e atirando ainda bafo a Jack Daniels. - "Ah, e pagas adiantado. Antes do assalto, quero tudo na minha mão, em notas."


O marido dela manteve-se calado por um momento. Depois, voltou a subir a escada da cave e deixou o fugitivo novamente só. - "Acho bem que tenhas ido buscar a massa. Estes cabrões dos ricos! "- falou de si para si, o fugitivo excitado com o plano que pouco trabalho e muita recompensa lhe traria. De novo os passos do marido a descer as escadas e um som a plástico roçando contra as pernas. O marido pousa o saco no chão e mostra-lhe um maço. -"É todo para si. Pode contá-lo, se quiser." - diz-lhe o futuro viúvo. O fugitivo musculado, aproxima-se do saco e conta por alto dos vários maços, vê-se que há outro pensamento que o ocupa. "Podes tratar-me por tu. Agora que somos quase amigos. Eu já percebi o teu plano, perfeitamente. É simples, eficiente. Só ainda não percebi como é que vais matar a tua cota". Novamente silêncio na cave. Depois o fugitivo insulflado prossegue: -"Sabes que na prisa não havia mulheres. E eu habituei-me a outros prazeres. Estás a perceber? E fica descansado que eu sou um túmulo. Com os segredos. Entre nós. Um túmulo. Estás a perceber? Tu para cota, até nem és feio. E cheiras bem."

segunda-feira, 3 de maio de 2010


happy

com dois pês

é igual a contente com dois tês

ambas são consoantes velozes

e mudas

domingo, 2 de maio de 2010


cozinhar e pôr no lixo

um tacho

de massa


a azia é coisa que surge subitamente

quarta-feira, 28 de abril de 2010


o que dizer da esquizofrenia
dos aspirantes a coisa nenhuma
e o que fazer a criaturas que habitam num mesmo texto?
o que dizer do cadáver muito esquisito da inveja em portugal
nunca mais chega o dia
do levantamento dos ossos

as serpentes do tear
começam por aprender um crochet ligeiro
de palavras sobre os outros
as opiniões às vezes são coitos interrompidos
imaginados
e o careca tem pentes como armas na gaveta
se o quiserem amar
falem baixinho
o poeta não precisa da bateria alheia
bate textos à noite na varanda
e ainda vos convida pra beber um copo
ele é rei cláudio
e vós
ingénuo hamlet

ai tantos nomes e ninguém por quem chamar

segunda-feira, 26 de abril de 2010


dormir sentado é uma prova dura à nossa coluna vertebral, embora nada importe neste momento, muito menos esse corpo a precisar de alimento e banho. na ante-sala dos cuidados intensivos, sentes-te no foyer de um espectáculo que à partida, vai demorar demasiado tempo e cujos conteúdos não te interessam. tens a boca seca, o melhor será ires tomar o pequeno-almoço. nunca percebeste porque é que uma bica curta e meia-torrada podem ser consideradas um almoço pequeno. quanto muito o primeiro lanche, o primeiro aperitivo do dia.

terça-feira, 20 de abril de 2010


Telemóvel desligado por causa dos radares, das sondas ou que raio é aquilo que no cockpit aparece em forma de esquema. O tipo moreno ao meu lado, não parou quieto nas, até agora, seis horas de vôo. Cheira mal a criatura, a chulé e ao colo leva o corão ou uma treta qualquer em árabe. Verifico uma vez mais na pasta se tenho todas as minhas coisas intactas, apesar de ter brevemente adormecido, foi o tempo suficiente para o meu moreno vizinho pôr as mãos no meu saco. Tudo no sítio. Tudo ok., que é como quem diz o:zero; k: kills. A comissária de bordo pára ao meu lado e fica a olhar para mim. Não pedi nada, não chamei ninguém. Apenas quero aterrar em casa, na minha sala, sozinho, a fumar um cigarro. O meu vizinho do ar, pede num inglês macarronico um copo com água. Está nervoso, o bicho. Sinto-o. Comecei a pensar em terrorismo desde o primeiro momento em que se sentou ao meu lado. Só me faltava isto. Pus um lápis de carvão afiado e a jeito no meio das pernas, não vá o diabo a oriente tecê-las e eu não quero colidir com monumentos patrimónios da humanidade. Vejo-o abrir o livro e com um marcador vermelho começar a sublinhar, o alcorão ou lá o que é aquilo. A vermelho? Só pode ser qualquer coisa estranha, demoníaca. E depois, vejo-o desenhar um boneco com uma bomba na mão. Não consigo conter o choque que coincide com um poço de ar. Lanço um suspiro alto. Ele olha para mim, ri-se. Eu carrego no botão, mesmo por cima da minha cabeça. Estou prestes a gritar ou a espetar-lhe o lápis na aorta. Ele ri-se ainda mais. Põe-me a mão na perna esquerda e diz: bang!

segunda-feira, 19 de abril de 2010


tento evocar a vontade. ser actor também é isto, saber evocar a vontade, saber convocá-la. vontade de brincar, nem sempre a temos. às vezes calha-nos companheiros de brincadeira na cena de quem não gostamos. não sabem brincar, simplesmente desejam pavonear-se no palco, mas no fundo andámos todos à procura do mesmo, que gostem de nós. há um sentimento profundo inerente a todos os actores: ser amado. há quem diga que somos todos frutos de uma educação desatenta, com falhas de atenção na parte dos afectos, por isso queremos ir para cena, para que nos olhem enquanto tentamos mostrar o que de mais puro temos, através das palavras dos outros, mostrar o coração.