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domingo, 27 de junho de 2010




digo palavrões



insultos variados



sem a mínima sensatez



despejo palavras compridas



seta direitas ao alvo






digo palavrões direitos ao parlamento



em linha recta



o poeta não se mete na política



atira-se contra ela



com toda a força






deito palavrões na bancada de políticos



ácidos desfazendo fatos



bombas armadilhadas em líderes penteados



eles não vão lá com metáforas



é pena









sábado, 26 de junho de 2010




a velha no retrovisor



enfadada



mantendo a pose



de pulseiras e anéis de ouro



agitando-se






não conheço a velhice das coisas feias



gosto de relicários



objectos usados



sujos






tenho um relógio de soldado americano



andou no vietnam



está lá escrito






não sei se chegou a fazer sangue e o tom amarelado do mostrador são os dentes dele com fome












sábado, 19 de junho de 2010



não tive tempo

para chorar


nasci de mochila às costas

e já sabia maneiras elegantes de conjugar palavras


não ri por mim

não tive paciência nem jeito


andei a roubar legumes na horta alheia

a encher a boca de outros para que não pudessem falar

nunca por caridade

fiz algo

apenas pelo silêncio.


sábado, 12 de junho de 2010


conjuga o verbo amar

só no presente do indicativo

é uma conjugação regular

de fácil memorização



e os bichos masturbam-se com simplicidade própria da acção

a chuva não mente

segunda-feira, 7 de junho de 2010



quando tatuar a palavra no ombro direito


de moeda em riste


pedirei um desejo


ou mais






de costas prá fontana di trevi


trinco com os caninos cinquenta cêntimos


e as notas no banco ficam tristes


por não serem vil metal atirado ao mar






o dinheiro traz a felicidade de pedir desejos em locais estrangeiros

a palavra tatuada é fé


domingo, 30 de maio de 2010


haiku


põe-te ao sol a esticar as penas

mulheres de sangue frio aquecem junto aos crocodilos

no rio

domingo, 23 de maio de 2010


vi-te na umbreira da porta

de olhar verde escuro

deixei cair o top

o cinto

os saltos

e os braços

deixei-me estar lânguida e pendente


a gravidade da alcatifa puxa para baixo

os ácaros entram na blusa ainda vestida

a euforia lúcida

sóbria



pensei que estivesses só de passagem entre continentes

e depois
naturalizei-me na tua pátria