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segunda-feira, 23 de agosto de 2010


deixa a luz de presença acesa


fica escuro na cabeça

uma nesga de visão apenas

miopias de carência

e pensamentos investimento

transporte de alta velocidade


quando um dia voltar à infância

ao ver-me sem soutien nem blusa

orgulhar-me-ei
tábua rasa do que fui

peito e nuca

quinta-feira, 15 de julho de 2010





cresci numa divisão única
num quarto minguante
3 adultos e meio por metro quadrado

cozinha
a um passo em frente
sanita
a um passo ao lado
e na vigia
um cão pendente chamado pluto

eu fugi à catequese
por terror à freira Júlia
não entendia o sorriso colado aos dentes
era mentira
via-se francamente

depois furei as orelhas à pistola e pus-me a chorar baixinho no degrau da igreja
jurei que morreria um dia

domingo, 11 de julho de 2010



não queiras representar
sê apenas
com as tuas merdas todas às costas
erros são uma mochila de campismo

estás sempre em cena
24 horas por dia
é difícil representar sem ponto nem contracena
esta peça contínua
mói
extenua
um dia serei capaz de me representar a mim própria
será fácil
chegar à última página do livro e pousa-lo na estante
ai quantas prateleiras vazias
e tantos bibelots por comprar

segunda-feira, 5 de julho de 2010


imaginemos um pacote de plástico

de conteúdo biológico

com centenas

milhares (?)

de grãos de arroz

todos juntos na asfixia do saco


nus colados uns aos outros

amando-se antes e depois

do tacho


e a maravilha de não saber que é assim a vida

asfixiada cozida e comida

quarta-feira, 30 de junho de 2010


se olharmos com atenção


há sempre um prisma em que um nome próprio não parece bonito

será pela vocalização

ou pla posse?

domingo, 27 de junho de 2010




digo palavrões



insultos variados



sem a mínima sensatez



despejo palavras compridas



seta direitas ao alvo






digo palavrões direitos ao parlamento



em linha recta



o poeta não se mete na política



atira-se contra ela



com toda a força






deito palavrões na bancada de políticos



ácidos desfazendo fatos



bombas armadilhadas em líderes penteados



eles não vão lá com metáforas



é pena









sábado, 26 de junho de 2010




a velha no retrovisor



enfadada



mantendo a pose



de pulseiras e anéis de ouro



agitando-se






não conheço a velhice das coisas feias



gosto de relicários



objectos usados



sujos






tenho um relógio de soldado americano



andou no vietnam



está lá escrito






não sei se chegou a fazer sangue e o tom amarelado do mostrador são os dentes dele com fome