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terça-feira, 5 de junho de 2012



Se soubesse o turbilhão que vai dentro da minha cabeça, na impossibilidade de me refrear os miolos tocando-os com os dedos, beijava-me a nuca. A minha experiência da inquietação é igual à sua. Começa por ser apenas uma indigestão de emoções, comeu um desejo estragado e aquilo começa a azedar, horas mais tarde, no pico do calor, que é quando as digestões se tornam difíceis. Se tiver a felicidade de completar a digestão e passar para a fase seguinte, fica cheio de flatulências, a vergonha em estado gasoso, e só mais tarde acabará por livrar-se dessas putrefacções pela via das fezes. Se por outro lado, ficar retido nesse processo digestivo, verá que se sente cada vez mais imobilizado: os músculos, os tendões e os ossos, até ser uma nesga de pessoa e apagar-se. 
Não estou a falar da ansiedade, isso é coisa de meninas em vésperas da menstruação, refiro-me à inquietação, àquela coisa fininha, à cárie que já atingiu o nervo. Disso pode morrer-se, acredite-me. E no mínimo, aleija.


quinta-feira, 5 de janeiro de 2012


Isto não é o início.
This is not the beginning. É uma experiência de luxo. Temos canapés para aguçar o apetite, caviar, verborreia acéfala para nos dilatar o bucho. Open your mind.
Estamos aqui. O tempo é já. Somos animais, criaturas inumanas, coisas. Somos monstros, pequenos monstros, grandes monstros. Entre o câmbio, o fundo e o risco estamos errados.
Hoje não jogas. Ficas no banco.
Hoje ficas no banco.
Hoje ficas.
Aproveita a inércia, somos muitos, somos demais. A viagem não tem destino marcado, não vamos a parte nenhuma. Isto não é grave, nem marcante. Isto é falso realismo, uma nova objectividade.
This is not a game.
Open your mind.
O nosso corpo é a paisagem da Alemanha de Bosch. Tríptico de guerra. Decapitações, sexo, trocas assépticas, sem cuspo, sodomia, incesto, morte. Somos a redenção da espécie, acreditem. O tempo é já.
Temos porno, pagamos o porno, e pagamos o cunnilingus, e o broche e o medo desta atrofia toda.
Somos terroristas. Somos altruístas.
Somos a enumeração de uma lista de compras, cheia de prioridades. Aguardamos na fila de atendimento especial e não estamos grávidos, não somos velhos, não estamos doentes. Temos ideologia e ética. E ética na ideologia. Somos pós-dramáticos. O tempo é já. Open your mind.
This is not the beginning.
This is not a game.

Cláudia Lucas Chéu in Fora de Jogo

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ser ou não ser MAOA


Segundo um grupo de cientistas americanos, a bondade e/ou a maldade humana – ao contrário do que as religiões nos querem fazer crer com as incontornáveis influências divinas ou demoníacas – é  praticamente da exclusividade genética, ou mais propriamente de uma enzima chamada MAOA, responsável pela produção da agressividade.  É óbvio que para se ser criminoso, não basta nascer com um cérebro com alta produção desta enzima,  pois segundo as experiências efectuadas com um grupo de jovens, apenas os que tiveram infâncias com ambientes problemáticos e/ou violentos desenvolveram certas disfunções ligadas à psicopatia. Neste contexto, seria relevante, considerarmos a infância, e a actividade cerebral de Duarte Lima e as recentes acusações de homicídio qualificado de Rosalina Ribeiro por Terras de Vera Cruz. Olhando para o vulgar crânio do dito ex-ministro – praticamente despovoado de pilosidade, é certo – nada nos leva a concluir ser a prática paranormal desta enzima a causa mais do que certa do hediondo crime cometido. Contudo uma vez que a disfunção desta enzima não é visível a olho nu, atribuir-lhe a responsabilidade pela já divulgada atrocidade desumana – ainda nada está provado legalmente e até ao julgamento toda a gente é inocente – seria totalmente especulativo e despropositado. Não podemos contudo excluir esta possibilidade e a sanguinária acção  do dito cavalheiro, pode ter sido obra não da sua própria vontade, mas da junção explosiva: MAOA + Um-tau-tau-valente-na infância. Certamente que gostaríamos também de saber se já foi descoberta a enzima que conduz de forma inevitável uma pessoa - aparentemente normal - à prática da vigarice, assim ser-nos-ia possível detectar com antecedência casos graves de descontrole de seriedade, evitando cairmos constantemente no chamado “Conto do Vigário”. E seria também interessante, submeter toda a actual classe política ao dito exame de cerebelo, verificando a sua actividade interna – já que a externa conseguimos observar através do Canal Parlamento – com o intuito de diagnosticar cada caso como um potencial, ser ou não ser(-se) MAOA.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011


mulher estou sempre a dizer a mesma frase é sempre a mesma apenas lhe troco as voltas
sinto o mesmo diga A ou B ou C
misturo-as na boca
baralho de cartas
e cuspo-as com toda a força
que se entenda quem as lê pelos ouvidos
às palavras
ontem saí de casa direita ao teatro
e pus-me a andar às voltas porque não conseguia entrar pela porta onde diz artista
dei para aí vinte voltas vinte voltas
eu
eu a mula da feira a girar
eu sem tickets vendidos
esgotada

in Mesa 4 de Cláudia Lucas Chéu

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

E pensar é difícil, quem o diz não sou eu, mas o Deleuze. Não me considero um pensador, um filósofo, enfim, um onanista do intelecto. Não passo de um punheteiro de considerações fugazes, mas um dia, quem sabe, talvez chegue a grandes masturbações, sem ejacular, sequer. Tornar-se-ão ideias de reserva, só minhas, mas até lá permitam-me vir convosco. Estão a acompanhar?
in Circle Jerk de Cláudia Lucas Chéu