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segunda-feira, 23 de julho de 2012


Heinrich Zimmer estava convencido de que o pai nunca o amara, pois só assim explicava, a sua frieza para consigo. O mais estranho, é que essa era a única qualidade, que ele apreciava no pai: a transparência. Mesmo sendo seu pai, apesar de ser seu pai, era incapaz de lhe dar afecto, só por obrigação desse laço parental, e Heinrich, agradecia-lhe essa verticalidade.

in Disparar Sobre os Humanos 

terça-feira, 17 de julho de 2012


Heinrich, ao contrário do seu pai, achava que a natureza do homem era tendencialmente má, pois os homens que eram bons, eram-no, apenas porque não tinham coragem suficiente, para serem o que sonharam para si. Ele não suportava a extrema benevolência, com que o seu pai – e a maior parte das pessoas que conhecia -, observava os horrores do mundo, e os comentava como se não fosse nada consigo, como se aquele Homem, não correspondesse a si próprio também. Thomas Zimmer tinha uma tendência para desvalorizar as barbaridades cometidas pelos homens:
“O homem é mesmo assim, só pára de fazer merda, quando o cheiro 
se torna demasiado insuportável.”


in Disparar Sobre os Humanos 

quinta-feira, 5 de julho de 2012


Franz estancou a olhar para a prostituta Hela, estranha e esguia, que lhe tocava ao de leve o enchumaço. Franz sentia-se ameaçado. O seu pai voltou a falar alto:
  "Se precisares de ajuda, entro convosco e mostro-te como é que se faz. Conheço bem os cantos da casa da Hela."
Hela, agarrou então Franz pela mão, e encaminhou-o para o quarto. "Não tenhas medo. Vais gozar, vais ver." - murmurou-lhe antes de fechar a porta.
Franz completava treze anos nesse dia, e Hela, mal ou bem, e por breves instantes, tinha-o feito gozar. Hela cheirava a fêmea, o que quer que seja que isto signifique. 
Franz saiu do quarto, com uma satisfação recente, mas foi novamente confrontado com o sarcasmo do pai:
"És mais rápido do que um tornado. Pena é que tenhas sido tu a ficar desfeito." 
    in Disparar Sobre os Humanos.


segunda-feira, 2 de julho de 2012

Se Luc resolvesse fazê-lo, se tivesse coragem de apontar a arma à mulher gorda, esta passaria a ver a vida de outra forma, pelo menos nos breves dias que se seguissem. Depois, não muito depois, a gorda voltaria, certamente, ao marasmo habitual. Os humanos nunca mudam e aborrecem-se a maior parte do tempo, os momentos de excitação e alívio, rareiam nas suas vidas. 

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Luc acha que só as barbaridades podem ser cometidas por humanos, as outras, as dos bichos, são apenas selvajarias. 

segunda-feira, 25 de junho de 2012


agora que cada vez mais
este eu se imprime
febril e lúcido
na metrópole cheia de gente
esvazio-me de certeza

a tinta mingua e o sangue coalha
na cova
para a cova
somos um covil de vermes
cemitério infinito em expansão
sobrelotado adiado e extinto  


in Meditações Sobre o Fim - Os Últimos Poemas, edição Hariemuj, Junho 2012

quinta-feira, 14 de junho de 2012


Soy un puto resentido y un puto inadaptado.
Soy un puto actor que hace de perro,
por una puta vez en su puta vida,
[…] porque un perro cobra más que un puto actor.
Angélica Liddell – Perro Muerto in Tintorería: Los Fuertes

1.
Calypso
Eu sou Calypso,
sou a actriz que faz de Calypso.
Sou a protagonista
paga para ser a outra,
escolhida e vestida de puta.
Seleccionada pela cara e pelas mamas,
– reparem no decote babado por velhos de ténis brancos.
O meu currículo foi lido na diagonal,
na horizontal
e é sempre surpreendente o efeito da contracção do diafragma.
Eu sou a deusa da minha classe,
tenho prémios e faço cinema. Sou imortal.
Vivo na merda de uma ilha,
e toda a gente sabe que os habitantes das ilhas não passam de prisoneiros na sua própria terra
e toda a gente sabe que o planeta é todo ele uma ilha,
rodeado do espaço todo, e toda a merda do universo,
mais o infinito em expansão, não passam eles próprios de uma ilha também.
Eu sou a actriz que hipnotiza os espectadores com o meu corpo HD,
e no Teatro sou pernas e rabo em 3D sem precisarem dos óculos.
Sou barata.
Sou cara.
Depende.
Faço-me pagar consoante o conteúdo,
se não me agrada faço-me cara.
Como as putas.
Eu sou a boca da Calipso,
eu sou o final da boca da Calipso.
A actriz que decorou as deixas, mas não entendeu o fim.
Eu estou abaixo das cadelas.
Sempre cheia de cio.
Sou uma cadela com cio.
Sou a actriz que faz de cadela com cio.
Sou exótica.
Sou estúpida.
Estou no final da cadeia alimentar.
Sou mulher.

in Colapso, publicações Teatro Nacional São João, 2011.