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terça-feira, 28 de agosto de 2012


Heinrich sentou-se. Pensou como seria complicado, desobedecer a um pedido por escrito. Para além do trabalho maior de ter de responder na mesma moeda, ou seja, escrever uma resposta, havia algo de respeitável, solene mesmo, num pedido escrito, que não existia pela via da fala. Heinrich imaginou-se na cama com a ruiva  surda-muda. No silêncio não se podia fornicar uma pessoa, a ausência de som, exigiria da sua parte uma cópula mais subtil. Contudo, soltaria ela, a ruiva surda-muda, uns ruídos animalescos, sem se aperceber disso, na altura do coito? Heinrich, entusiasmou-se com a ideia de estar com uma mulher na cama, cuja linguagem fosse apenas a do corpo, e não, a da língua que fala.

in Disparar Sobre os Humanos

quinta-feira, 23 de agosto de 2012

Heinrich não conseguia precisar, quando é que passou de cliente a íntimo de Alba, mas talvez tenha sido no primeiro dia em que adormeceu, depois de terem fornicado. Foi um sono tranquilo, quase inocente. Deixar o putímetro ligado enquanto se dorme, é talvez a melhor garantia, de que não vão acordar-nos tão cedo.

in Disparar Sobre os Humanos.


segunda-feira, 13 de agosto de 2012

Alba era puta, e Heinrich orgulhava-se disso, sem qualquer sentimento de proxeneta ou assim. Heinrich louvava as qualidades de sobrevivente da sua amante, que era capaz de tudo para se manter à tona, e agora, mais recentemente, ser a progenitora que sustentava e galvanizava a sua cria. Alba era uma boa puta, sem dúvida.

in Disparar Sobre os Humanos

segunda-feira, 30 de julho de 2012


Duna, estaria no silêncio do hospital, como se os técnicos de bata branca, coreografassem diagnósticos para si. Heinrich sentiu-se contente, por Duna não poder partilhar do ruído dos homens, da máquinas, de tudo, e ter o privilégio de usar outros sentidos para escutar, sem ser pelos ouvidos. Não havia coisa mais enganadora, do que usar - como nos forçaram a crer -, os sentidos correspondentes, e tornar todas as percepções em coisas normalizadas. 
in Disparar Sobre os Humanos 

terça-feira, 24 de julho de 2012


Quando Alba era mais nova - pelo menos até ao final da adolescência -, a aquisição de coisas, era a forma de tentar atingir um determinado ideal. Como se houvesse alguma ideologia nas coisas e esta contaminasse a pessoa que as adquire: um casaco comunista, uma estola de direita, ou mesmo, quem sabe, umas sandálias anarquistas. Material altamente virulento, portanto.
Agora que amadurecera, Alba, acreditava na inocuidade das coisas.  As ideias dos humanos é que estavam pesteadas.

in Disparar Sobre os Humanos

segunda-feira, 23 de julho de 2012


Heinrich Zimmer estava convencido de que o pai nunca o amara, pois só assim explicava, a sua frieza para consigo. O mais estranho, é que essa era a única qualidade, que ele apreciava no pai: a transparência. Mesmo sendo seu pai, apesar de ser seu pai, era incapaz de lhe dar afecto, só por obrigação desse laço parental, e Heinrich, agradecia-lhe essa verticalidade.

in Disparar Sobre os Humanos 

terça-feira, 17 de julho de 2012


Heinrich, ao contrário do seu pai, achava que a natureza do homem era tendencialmente má, pois os homens que eram bons, eram-no, apenas porque não tinham coragem suficiente, para serem o que sonharam para si. Ele não suportava a extrema benevolência, com que o seu pai – e a maior parte das pessoas que conhecia -, observava os horrores do mundo, e os comentava como se não fosse nada consigo, como se aquele Homem, não correspondesse a si próprio também. Thomas Zimmer tinha uma tendência para desvalorizar as barbaridades cometidas pelos homens:
“O homem é mesmo assim, só pára de fazer merda, quando o cheiro 
se torna demasiado insuportável.”


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