Número total de visualizações de página

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Apostámos virar a esquina.
As minhas cuecas italianas; os teus óculos escuros. 
Metidos na autoestrada onde há máquinas a fazer de portageiros. Sem testemunhas directas. Apenas a gravação de vídeo vigilância.
Não sei quantos quilómetros percorremos à procura dessa meta perpendicular. As minhas cuecas cada vez mais usadas; os teus óculos a reflectir o outro lado da estrada.
Nenhum caminho para dobrar; e a tentação cada vez mais alta. Subimos a parada: a minha roupa íntima completa e os teus óculos escuros mais a caixa onde nunca os guardas.
Na área de serviço encontrámos o mais próximo de ser esquina.
Uma quina modesta impermeável à viatura.
Saímos do carro. E a pé percorremos o paralelo infinito da estradas: várias dentro de outra. A nossa aposta era mais uma troca.
Dobrámos o trilho: miragem de sentido único e beco.

in Trespasse Imóvel

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estranha-se; quando há expectativas.
Também se espera alguma coisa do desconhecido.
O paradigma da normalidade, por exemplo.
Esquivam-se os amigos e os parentes; basta uma mudança sintática, uma vírgula.

Só os amantes e os doidos a usam; é lubrificante.

in A Cabeça Muda

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Saímos para a rua.
O cheiro a urina humana no nosso muro.
Excitei-me como uma cadela com o cio; aceitaria qualquer animal.
No reverso podia ler-se: ganas de extinção. 
O cheiro a mijo a marcar território; entre o sexo e a morte.
Sentada na cadeira o horizonte fica mais baixo.
O mundo concentrado em dois pólos: céu e chão.
Como quando visitamos um imóvel novo ou viajamos para um local desconhecido.
Estamos sempre a olhar para os sítios que ignoramos perto de casa.
Tornei-me estrangeira; enquanto empurravas a cadeira atrás de mim.

in A Cabeça Muda

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013


Quando a menina, por fim, está deitada na cama
- oiço-a bater por acidente com a cabeça nas grades de madeira –,
não preciso de certificar-me que dorme e ninguém me vê.
Na sala deixo o televisor ligado;
despisto o silêncio com reclames espalhafatosos no volume mínimo
e nem assim evito pôr-me a chorar.
Na sala onde ninguém me pode ver há uma varanda.
A vizinha de cima deixou cair uma cigarrilha acesa
no exacto momento em que decidi recomeçar a fumar.
Interpreto literalmente como um sinal vindo de cima; acendo o cigarro, desato a fumar.
(Uma mota arranha de passagem o silêncio)
Gosto do tabaco; mesmo com o sabor das lágrimas e do renho à mistura.
Sempre faz mais companhia que os reclames; é uma coisa que se faz com contacto físico.
Na varanda onde se eu der grito alguém pode reparar,
debruço-me no parapeito e cuspo.
Não há ninguém para acertar; é noite e ninguém passa por aqui.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

A pá é a chave da tua última morada. Não penses que vais conhecer mais alguma. O terreno está pago, só falta começar com as escavações. Escolhi-te um sítio lindo. Confia em mim. É bucólico, mas perto da cidade. Não te quero desterrada depois de morta; bastou-te em vida.



in A Cabeça Muda


domingo, 24 de novembro de 2013


Astrid

Quero ser uma natureza morta Um limão pousado na fruteira
Um cacho de uvas doces tombado sobre a mesa Figos Alperces
Peixe mal amanhado Uma truta Uma fatia de salmão Outra de pão 
Uma taça de vinho Quero ser uma lebre esventrada sobre a tábua de madeira
Vísceras e sangue escorrendo para o chão
Uma poça encarnada Em extensão
Flores numa jarra partida entornado água podre Fétida Atraindo bichos
Mosquitos Baratas Homens Restos de outra natureza morta
Quero ser uma paisagem Um cadáver na paisagem A peça de caça num tabuleiro
O osso de animal selvagem 
Sem autor Sem galerista Nem comprador
Na subcave Tapada


in A Cativa

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

1.

O homem fala a verdade: primeiro com os olhos e depois com a boca - como ninguém dá conta -,
espeta um garfo no falo.