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segunda-feira, 2 de junho de 2014

Espreitar o avesso. E nunca mais infância.
Com sorte, sol morno pelo vidro do carro; pés descalços nos pedais. 
E na paisagem: instagram de relva e cães sem trela. 
Procura desentender.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Faz-te forte. Hoje é preciso fingir. 
Não te mostres, nem mesmo ao simpático desconhecido. 
Mantém-te alerta ou cometes os mesmos erros na forma idêntica.
Agarra-te bem. Como na montanha russa. 
Nunca se sabe quantas quedas tem a viagem. 
Tem pressa em ser amanhã. É lá que habita a nudez. 
E todas as coisas puras que existem, não em ti, não desta maneira. 
Limpa a imundície. Sobretudo, entre os olhos e a boca. O lugar escuro; do medo.
Preenche esse espaço com compotas e mel. E não fiques à espera. 
Alguma língua há-de descobrir-te o rasto.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014



Klaus
Hoje aconteceu uma coisa incrível.
Sabes aquele meu colega, John, o gordo – acho que já te falei dele.
O problema dele nem é ser badochas, é ser feio;
é tão feio que sinto pena
quando tenta fazer-se de engraçado para raparigas que trabalham connosco.
É impressionante como todas as mulheres se afastam dele.
Só o encaram quando tem mesmo de ser;
quando o vejo a fazer figuras tristes costumo desviar o olhar,
acho que é isto a chamada vergonha alheia.
Mas hoje ele fez uma coisa horrível.
Uma colega nossa, a Ruth, disse-lhe que
as pessoas feias não deviam continuar a reproduzir-se, assim de chofre
à frente de toda a gente, enquanto estávamos a almoçar.
Olhou-o nos olhos e disse-lhe sabe uma coisa John, as pessoas feias não deviam reproduzir-se. 

in A Cabeça Muda, Cama de Gato edições, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Não há terra na cidade; o chão inculto.
Na esterilidade da metrópole, só infância e velhice.
Os bairros transformaram-se num enorme fraldário.
Experimenta comprar um bilhete de metropolitano; por comparação, a tua merda torna-se-á noutra coisa, talvez fecunda. 
Na cidade tens de aprender a viajar para todos os lugares esteréis. 
Cultivar essa aridez é o exercício do cosmopolita.

in Trespasse Imóvel

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Apostámos virar a esquina.
As minhas cuecas italianas; os teus óculos escuros. 
Metidos na autoestrada onde há máquinas a fazer de portageiros. Sem testemunhas directas. Apenas a gravação de vídeo vigilância.
Não sei quantos quilómetros percorremos à procura dessa meta perpendicular. As minhas cuecas cada vez mais usadas; os teus óculos a reflectir o outro lado da estrada.
Nenhum caminho para dobrar; e a tentação cada vez mais alta. Subimos a parada: a minha roupa íntima completa e os teus óculos escuros mais a caixa onde nunca os guardas.
Na área de serviço encontrámos o mais próximo de ser esquina.
Uma quina modesta impermeável à viatura.
Saímos do carro. E a pé percorremos o paralelo infinito da estradas: várias dentro de outra. A nossa aposta era mais uma troca.
Dobrámos o trilho: miragem de sentido único e beco.

in Trespasse Imóvel

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

Estranha-se; quando há expectativas.
Também se espera alguma coisa do desconhecido.
O paradigma da normalidade, por exemplo.
Esquivam-se os amigos e os parentes; basta uma mudança sintática, uma vírgula.

Só os amantes e os doidos a usam; é lubrificante.

in A Cabeça Muda

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Saímos para a rua.
O cheiro a urina humana no nosso muro.
Excitei-me como uma cadela com o cio; aceitaria qualquer animal.
No reverso podia ler-se: ganas de extinção. 
O cheiro a mijo a marcar território; entre o sexo e a morte.
Sentada na cadeira o horizonte fica mais baixo.
O mundo concentrado em dois pólos: céu e chão.
Como quando visitamos um imóvel novo ou viajamos para um local desconhecido.
Estamos sempre a olhar para os sítios que ignoramos perto de casa.
Tornei-me estrangeira; enquanto empurravas a cadeira atrás de mim.

in A Cabeça Muda