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sábado, 9 de janeiro de 2010

fastio


compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um cão dá-lhe pão caga o cão

revende o cão compra pão caga o pão

compra um pão come pão caga o pão

não compra não come não caga morre


Alberto Pimenta


(Tive a felicidade de privar com este génio e aprendi a subir às mesas da Faculdade para falar.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
















ah


o teu sexo é igual ao meu


partilhemos lâminas e cuecas


as depilações e os corrimentos genitais A2


são pormenores insignificantes num altar


casemos


pois.






























quinta-feira, 7 de janeiro de 2010




- Não há nada que eu não consiga fazer.
Pensava a menina sempre que acordava. Saía da sua cama muito larga e pousava os pequenos pés descalços em cima do cimento do poço. Os pais da menina viviam numa casa um pouco distante, mas estavam sempre junto dela tanto ao deitar como ao nascer do dia. A sua mãe vestia-a, puxava-lhe os collans de lã bem acima do umbigo e muitas vezes, fazia-a balouçar pelo cós das meias, dando saltos gigantescos em cima do colchão da cama. Depois, preparava-lhe sempre o pequeno-almoço antes de ela ir para a escola e acompanhava-a até à saída do pátio onde viviam. Ficava a acenar-lhe até desaparecer na estrada. Até ela desaparecer na estrada.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


quantas sílabas cabem na palavra?

três:

pa-la-vradehonra.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

pedro e inês



já passava da meia noite da década seguinte

quando me puxaste a mão desocupada da flute

para dentro da capela

não trocámos alianças

apenas lágrimas à beira de cair

e o fogo-de-artíficio lá fora

chuac

na boca em frente ao senhor

e a testemunha foi um intelectual francês

espreitando à porta

domingo, 3 de janeiro de 2010





3 de Janeiro 1983



Eu tenho cinco anos e sonhei a noite passada que já conseguia andar de bicicleta, sem que o meu pai vá atrás de mim a segurar no banco.

Já consigo ler a palavra PARAR a luzir dentro dos autocarros e percebi a lógica pavloviana, entre carregar no botão vermelho do varão e o consequente letreiro a piscar.

Sei escrever o meu nome, mas só o primeiro e estou quase a deixar de ter medo dos vampiros e do lobo mau do capuchinho vermelho, aquele que caminha de pé e tem umas jardineiras azuis escuras.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009



O vestido azul escuro de seda teve de ser trocado, estava-me grande. Está-me grande. Ofereceram-mo numa caixa de papelão daquelas quadradas, apenas fechadas por uma fita de tecido fazendo um laço. Sempre sonhei receber uma caixa assim, uma fantasia. Desde miúda que esperava pela caixa do presente. Mais do que o próprio presente, a caixa.
Eu tinha quatro ou cinco anos, já não sei e o meu pai, na época carpinteiro de profissão, construiu-me pelo natal um quadro de ardósia em tamanho grande, um banquinho para me poder sentar nele e desenhar horas a fio e ainda um pequeno apagador que fazia da minha imaginação e criação plástica práticas infinitas. Não houve possibilidade de embrulhar tudo isto devido às dimensões do conjunto, por isso o meu pai e a minha mãe colocaram por cima dele um lençol branco. Quando entrei no quarto, apenas vi coberto um volume enorme e aproximei-me a medo daquilo que disseram ser o meu presente de Natal.
Eles não tinham dinheiro para comprar nada, excepto comida e talvez algum tabaco para queimar o tempo. Aquele presente foi construído durante semanas, com trabalho árduo, horas fora da hora, material surripiado da carpintaria, restos, com amor. E só por isso, perdoo-lhes não o terem posto numa caixa de cartão. Foi o melhor presente que recebi. Na vida.
Devolvi o vestido por não me servir, guardei a caixa, ali no quarto e vou lá pôr as cartas que me escreves sempre que estás muito perto de mim. Recebo cartas quando nos olhos olhamos, assim fechados num mesmo envelope.