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quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

sei contar por ordem alfabética

a. escrevo sob pseudónimo
mas no meu blogue pensam que eu sou real
mil pessoas visitaram-me
virtualmente
acredito que uma delas
foi deus



b. percebi pelo comentário em branco



c. 03-01-1978
na cama 13 do quarto 23



d. nunca fui picada pela vespa
tenho-a submissa
acorrentada ao poste
gasta pouco para me levar à piscina



e. na pochette zero €€€€€€€€€€€€€€€€€
€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€€
s



f. eu ainda não fui baptizada
os meus pais
esperam
que escolha
a minha religião




g. sou divorciada gay
assim que sair o decreto
h. ofereço porrada a quem conseguir ler o meu nome
na carta de condução









Z. o alfabeto
não é infinito
como o universo

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

martelar os dedos


Vi ontem, o filme do jovem realizador norte-americano, Afterschool. Magnífico. Com uma linguagem visual apuradísima e forte noção do tempo das cenas, o realizador/autor Antonio Campos, mergulha-nos na realidade contemporânea da arca-frigorífica.

O filme explora a problemática do real. Cresci a ver filmes no cinema e na tv e a deixar-me influenciar por eles. Assistir ao Rocky IV e sair de lá a tentar lutar com os amigos e colegas era normal. Assistir a filmes românticos e tentar encontrar rapidamente um alvo depositário desses pensamentos amorosos, fazia parte do periodo da nossa vida onde as hormonas saltitam livres. E tudo tinha uma enorme intensidade, porque a ficção excitava-nos. A esta geração não lhes basta os filmes, a dose de realidade exigida tem de ser superior. Esta geração (digo esta, porque já não é a minha, não tenho qualquer sentido moral sobre isso), procura nos mini-filmes do youtube a Realidade. Já nem a pornografia os excita particularmente, tem de ser uma pornografia que pareça real. E infelizmente, os espancamentos parecem sempre mais reais que o amor. É assustador pensar que esta malta anda (como disse o meu companheiro) "à procura da realidade na virtualidade".

As buscas dos vídeos no youtube, vão desde gatinhos a cair do sofá ao enforcamento de Saddam Hussein, a premissa é que seja "real".

A Internet, é sem dúvida, uma excelente caixa de ferramentas, mas cuidado com os martelos. Em pleno século XXI, não percebemos ainda que martelar um dedo aleija?

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dejá vu repetitivo ou processo de criação



Li algures que as conversas têm três níveis: pessoas, factos ou ideias, embora a maior parte das vezes não se passe do primeiro nível. Acredito piamente que a nossa identidade reside sobretudo na palavra e na sua enunciação, pois só aqui se nos coloca o conceito da verdade, não se diz falso o ladrar de um cão ou o chilrear de um pássaro, mas à palavra cabe-lhe essa tarefa árdua de encontrar o puro. (...)Repetir é recordar para a frente e para trás mija a burra(...) José Maria Vieira Mendes in A Minha Mulher. Podemos constatar que é através do processo de repetição que o Homem cria e valida a sua identidade. Se não repetissemos os mesmos gestos e entoações como poderiam(os) reconhecer-nos? O mesmo se passa com a História, os acontecimentos trágicos ou "eufóricos" não são meros dejá vus repetitivos? E não continuamos a cometer consecutivamente os mesmos erros? Segundo Slavoj Zizek, o processo de aparição/criação é produto de um mero engano e (digo eu), o erro só surge quando tentamos repetir algo. O mesmo sistema de repetição se aplica ao actor e ao processo de interiorização e vivência de um texto. Só pela repetição chegamos mais longe, ao erro, ao nosso "eu" mais interior e que até à data se tinha revelado inacessível.

domingo, 10 de janeiro de 2010





na noite






é bom andar sobre o arame




sem planos nem rede




ter apenas tabaco e cartão




para dar senhas falsas




e entrar nas festas privadas






ouvir funk vivo




e estar sóbrio




muito limpo




com o cabelo atrás das orelhas




sem risco








sempre gostei de canecas com chocolate e leite antes de passear o cão
não quero passar por mim sem reparar

sábado, 9 de janeiro de 2010

fastio


compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um cão dá-lhe pão caga o cão

revende o cão compra pão caga o pão

compra um pão come pão caga o pão

não compra não come não caga morre


Alberto Pimenta


(Tive a felicidade de privar com este génio e aprendi a subir às mesas da Faculdade para falar.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
















ah


o teu sexo é igual ao meu


partilhemos lâminas e cuecas


as depilações e os corrimentos genitais A2


são pormenores insignificantes num altar


casemos


pois.






























quinta-feira, 7 de janeiro de 2010




- Não há nada que eu não consiga fazer.
Pensava a menina sempre que acordava. Saía da sua cama muito larga e pousava os pequenos pés descalços em cima do cimento do poço. Os pais da menina viviam numa casa um pouco distante, mas estavam sempre junto dela tanto ao deitar como ao nascer do dia. A sua mãe vestia-a, puxava-lhe os collans de lã bem acima do umbigo e muitas vezes, fazia-a balouçar pelo cós das meias, dando saltos gigantescos em cima do colchão da cama. Depois, preparava-lhe sempre o pequeno-almoço antes de ela ir para a escola e acompanhava-a até à saída do pátio onde viviam. Ficava a acenar-lhe até desaparecer na estrada. Até ela desaparecer na estrada.