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sábado, 13 de fevereiro de 2010


este país não é para honestos


quem fingir melhor leva uma bolsa de estudo


ou um prémio




emigra e aprende a dizer a verdade.


sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010



hipertexto
do latim
inexistente
singular masculino
sequência de texto
que permite remissão
para outro lugar
documento
ficheiro
página da internet
etc.
hiper
texto
supermercado de palavras
com sílabas novas
directamente importadas
das américas
hiper
delete
texto

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

incorpóreo


vi no écran
o que era um papel


não quis acreditar na brancura
fluorescente
desta cor


disseram-me que vinha de dentro
esta luz
mas não entendo
eu apenas carreguei no on

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010


O hipertexto é uma colcha de duas fases, reversível consoante o gosto de quem a usa, um patchwork em progressão. E como uma colcha, é também extensível conforme o cliente que se tapa. Não está preso ao colchão, não se entalam as pontas, pois por elas se poderão puxar caso haja acomodações de última hora. O texto cibernético, é uma espécie de secção do IKEA, onde as mantas se amontoam (passo o pleonasmo) e parecendo todas iguais têm um número de série que as distingue. As prateleiras estão organizadas por mantas, só que à semelhança das redes, não sabemos onde é o príncipio e o fim.
A irreversibilidade está destinada apenas ao livro impresso na 1ª edição e à retrosaria (extinta) da esquina.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010





não me pula o pé




para certas coisas










carraças de bichos




e jogos da macaca mal desenhados a giz




no alcatrão




em ruas sem carros








não me pula o pé




para sapatos de fivela apertados




e




unhas das mãos pintadas de rosa choque








pula-me




pula-me




água salgada




fria




a bater de chapão no peito nu e andar por ruas estreitas e sujas.




segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010


Página em branco na horizontal

domingo, 7 de fevereiro de 2010


o trânsito a andar e ele a conduzir com a ponta dos dedos. só com a pontas dos dedos. um taxista sensível, pensei, delicado. tinha um gorro verde de lã enfiado pela cabeça abaixo, um cachecol e um kispo, apesar do ar condicionado ligado no quente. não estava frio, sequer. o rádio do carro, desligado e ele lá ia acelerando pelo silêncio da cidade. eu ia sentada atrás, calada, a observar esta criatura toda tapada de lãs, que agarrava o volante na ponta dos dedos.

depois, o trânsito começou a entupir as vias e o taxista sensível, olhou para mim pelo espelho retrovisor. "as unhas estão a cair-me" e eu nada. "estive em quimioterapia durante um ano, mas tenho que trabalhar" e eu, pois. "tenho dois filhos: um com quatro e outro com doze e uma mulher com menopausa na cabeça" e eu, isso é que é pior. "o que mais me custou foi ver o pequenino a olhar para mim e a perguntar-me porque é que eu estava careca" e eu, silêncio absoluto, a olhá-lo nos olhos plo retrovisor. e ele a encher-se de lágrimas no abismo do olhar. e eu a apertar os dedos contra a napa do banco.

deixou-me à porta de casa. não pus a chave na fechadura. fui à mercearia comprar pão.