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segunda-feira, 1 de março de 2010


fiz sempre questão de cortar o cabelo no barbeiro onde iam os meus primos, bem curto e rente à nuca, nunca quis ser distinguida por atributos físicos. durante muito tempo, achei-me capaz de fazer tudo e de todas as maneiras, não havia impossibilidades para mim.
combinámos encontrar-nos às cinco e um quarto no corredor da casa da avó, mesmo por detrás do bengaleiro, junto à parede. e assim foi, perguntei à minha mãe que horas eram, pois ainda não sabia ler as horas em forma de números, confirmado o tempo exacto lá me dirigi para o corredor. ele já lá estava escondido atrás do casaco de malha azul escuro da avó e eu esgueirei-me para debaixo do kispo do pai pendurado ao lado da malha da avó. somos duas crianças em forma de agasalho, então o que fazemos, perguntei eu, já tenho as chaves do carro, disse-me ele, mas tu sabes conduzir, pergunto novamente eu, claro, aprendi com o meu pai, e então, digo eu, então vamos fugir desta casa, diz ele, mas para onde, pergunto eu, vamos até à praia e depois logo vemos, eu penso. debaixo do kispo do pai, sinto-me a rebentar de adrenalina. imaginar um futuro onde só eu é que sei, eu decido, eu escolho e tantos eu-sítios por descobrir. só eu e o primo joão. e cinco anos de existência ingénua.

domingo, 28 de fevereiro de 2010


o domingo oprime o trabalho

lá fora chove

não tenho roupa para tirar do estendal

que prazer não ser

coçar os olhos

só isso

ou tirar burriés com o dedo mínimo

moluscos de ranho


um xaile pelas costas

e o meu cérebro uma massa gelatinosa em lume brando


sábado, 27 de fevereiro de 2010




cláudia lucas chéu is downloading a new version of paradise






o paraíso de être


vou baixar o ficheiro


e fazer a transferência de ego


para um local distante




o meu disco rígido não permite instalar acessórios


é preciso apagar ficheiros


para guardar pedras novas


e diamantes por encontrar






a versão do paraíso pode ser pirateada


convém que o seja


il en faut peu pour être hereux mais noblesse oblige




hoje sou a poliglota dos temporais

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010


eu não durmo, viajo.
tudo é parte da mesma ficção.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010


eu fui à bélgica de aviããão

no aeroporto encontrei um borrachão

pisquei-lhe o olho

apertei-lhe a mããão

mas o que ele queria

era um ponto de interrogação

stop



letra da canção de jogo infantil com palmas

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

anne marie schwarzenbach


o primeiro pseudónimo que usei na adolescência foi anne marie. não sei explicar porquê. hoje esbarrei casualmente numa mulher com esse nome. uma artista suiça: fotógrafa, escritora e jornalista.


também esta anne marie anda de bicicleta e tem o cabelo curto. escreve, para além de outras coisas. e viaja, muito. é conhecida sobretudo como viajante. que privilégio.


as coincidências são objectos achados na rua. alguém os perde para que possamos encontrá-los.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010


porque é que ainda se limpa a casa à mão? não há ainda uma máquina que faça tudo, um robot barato a bateria ou a pilhas que execute todas as tarefas domésticas eficientemente. é que não há paciência para limpar uma coisa que não tarda nada já está suja outra vez, cheias de carrapetas de porcaria, pó, ranço nas loiças do banho, teias-de-aranha, cotão. enfim, um sem número sujidades que nascem simplesmente da nossa vivência num espaço.

por enquanto a alternativa é contratar mão alheia, ser gentil e oferecer-lhe luvas que preservem sãs e santas tais entidades. eu já tenho as luvas, mas as mãos são as minhas. próprias.