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quarta-feira, 24 de março de 2010


envelhecer é aloirar os cabelos

e ter sardas nas costas das mãos


hoje vi a velhice a folhear westerns de bolso no banco do fundo de um eléctrico

terça-feira, 23 de março de 2010


hamlet comendo terra


batatas fritas

vinho branco

e cigarros ao relento


hamlet comendo terra

molhada

da mangueira esguicha chuva

hip hop a tocar


na familia

óculos escuros

graduados

tentativa de zoom na televisão

da alma


hamlet cuspindo terra

arlequim de palavras

disparadas alto ao microfone


segunda-feira, 22 de março de 2010


Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro.
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."

domingo, 14 de março de 2010


apaga-se a luz

finita la comédia


passos a fechar a porta do teatro

música

a banda no coreto anuncia a próxima viagem





sexta-feira, 12 de março de 2010



privatizem-me


as pernas


as orelhas os pés a nuca


e os cabelos púbicos




privatizem-me


e trespassem-me depois a alguém estrangeiro


por uma ninharia me deixo privatizar




sou uma edp


endividada


uma epal com problemas de canalização






vendam-me


discutimos depois o preço


sou barata

quinta-feira, 11 de março de 2010




batalhar com os olhos postos na luz


nunca nada foi tão claro


sou uma pianista das letras


executo composições


partituras


vindas de muitas partes
e algumas
da minha cabeça

quarta-feira, 10 de março de 2010


não te sentes no lugar do pendura

o volante é teu

guia