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segunda-feira, 5 de abril de 2010


Mergulhou de olhos abertos, tentando certificar-se através de outro sentido aquilo que, apenas pelo tacto lhe parecia um equívoco, uma distorção da realidade, mas as órbitas esbugalhadas e submersas não atingiam mais do que o turvo verdete do mar agora sem ondas, de rastos, contrariando o enrolanço violento com que há pouco se debatera. Por isso, tornou ao braille genital e comprovou atráves dos dedos a penugem marítima comportando-se como algas. Afastou-se novamente da margem e continuou dando às pernas e aos braços, enervando-se muito por estar sem pé e sem cuecas, pôs-se a blasfemar baixinho às ondas, às marés que lhe levaram o fato. Até quando aguentaria a Sra. Marques nua dando às barbatanas? Mas onde é que se enfiara o fato? Na praia, só um velho sentado a ler o jornal, talvez nem reparasse na sua saída de alforreca murcha, balzaquiana. Já os mamilos lhe começavam a roxear, por isso começou a nadar de rabo exposto na direcção da areia. E depois, pensando uma segunda vez na resolução da sua nudez, viu-se na eminência única de se dirigir ao cavalheiro, pedindo-lhe cobertura. Está a Sra. Dona Marques toda nua de barbatanas aproximando-se do informado cidadão, quando medindo mal a rasteira duna, tropeça e cai com mau jeito na areia seca. Fica então um croquete de senhora e congratula-se com tal situação, pois cheia de areia disfarça os volumes e as cores que em pormenor caracterizam o seu género. Retoma a tosca marcha na direcção do leitor e põe-se na sua melhor posição de senhora, fazendo sombra à leitura do cavalheiro:
- O senhor sabe que horas são?
O leitor de notícias perplexo, qual varejeira em plena sardinhada no Verão:
- Desculpe, mas não trouxe o meu relógio.
E ela:
- Eu acho que já está a ficar tarde, não tarda e cai o crepúsculo. O senhor importa-se de me dar o seu casaco?

domingo, 4 de abril de 2010


menina à procura do pai no meio de uma exposição de arte:

pai, reconheci-te pela tua tosse. não podias fazer uma tosse assim. diferente. não sei.


jesus à procura do pai no paraíso:

idem idem aspas aspas

sexta-feira, 2 de abril de 2010


esqueci-me de apontar as ideias num bloco

fugiram todas atadas num balão

e o meu cachorro comeu as páginas em rosa lisas


vou buscar amêndoas

e comê-las à fartazana

mas só as de chocolate

as de açúcar são rijas

e magoam as gengivas

quarta-feira, 31 de março de 2010



o artista cansado


deita a cabeça no braço do violino


cem mil pessoas a ver


mais duas câmaras frente ao palco


violinista reformado


barbudo


pousa o canino queixo


de beiços caídos


olhos fechados na primeira linha


dorme durante a paixão


são mateus


dorme tranquilo


à sua volta mais de duzentos músicos


em actividade


escarnecendo do sono


e o maestro coxo


são mateus


o maestro coxo navega na partitura


submerge


levita


até ao sagrado




dentro de bach estão todas as coisas que desconheço

segunda-feira, 29 de março de 2010

quero pensar na perfeição que não atingirei


e no riso do fracasso visto de cima para baixo





quero rir-me das teorias vendidas em receitas


e das contas em euros e bens partilhados





rir de boca aberta


num esgar


misto de cinismo e vontade


ah ah ah pujante





não há nada melhor do que o riso com os dentes todos expostos


mesmo cariados ou implantados vários


mesmo sem brancura


rir é mostrar os dentes todos


e atirar ar de volta ao espaço

sábado, 27 de março de 2010


diz-me qual é o ângulo morto da nossa estratégia romântica

não te apanho pelo retrovisor


nem virando o pescoço


a minha visão periférica não alcança o teu corpo

diz-me

qual é o ângulo vivo

e eu mudo de posição

sexta-feira, 26 de março de 2010



não leias significados


vê apenas palavras que vibram em contacto umas com as outras


impressões masturbando-se conjuntamente


as letras não significam porra nenhuma


são apenas folhas de papel sujas




lê as sílabas como números


algarismos abstractos de tinta


não está lá mais nada




concentra-te a ler cabeças


é essa pasta que interessa


a obra prima desta coisa que se chama natureza vida e tudo