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quarta-feira, 30 de março de 2011


sou da estirpe das mulheres maduras
nada é irreflectido nos meus actos
aprendi a atar os sapatos
sozinha

contento-me com muito
há necessidades impossíveis de satisfazer

quinta-feira, 17 de março de 2011


dramatiker

sou um indivíduo que acato as ordens
um homem que não está desiludido com as pessoas
- elas fazem o que podem

o pai da inês sou eu
tenho uma ferida profunda no crânio

os filhos não são bolas de ping-pong
têm de estar fora do tabuleiro

uma vez escrevi
com amor
na dedicatória de um livro que lhe dei mas a minha cria não reparou

um beijo inês e quando tiveres oportunidade
dá-me um sinal que eu vou buscar-te


domingo, 27 de fevereiro de 2011


a menina da lapa
não escreve
apenas decora a folha

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Fala e Didascália estão sentadas na boca de cena.

Didascália - E se eu nunca dissesse nada?
Fala - Era óptimo.
Didascália - Sei que não aprecias no meu trabalho.
Fala - É bom que saibas que não mandas em mim.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011


tenho um único paradigma
na vida
um pai camponês
que nunca dormiu
nem sequer cabeceou

agora entendo
sou crescida e incrédula criatura

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


o chinês de queluz
absorto
na carruagem dos subúrbios
a ouvir hip hop

e a mulher à sua frente
dormindo exausta
sonhos shop soi
de rafeiros tenros

domingo, 2 de janeiro de 2011


à porta das urgências
deitada na maca
a dona grisalha
tem as mãos juntas numa prece
e as unhas pintadas de prateado
lascadas

a filha anafada
burguesinha expedita de cabelo palha-de-aço
descolorado
pede o livro de reclamações
e firme escreve o obituário da mãe
zangada
pagou todas as mensalidades do documento que lhe prometia vida
sem falhar uma
e foi enganada

a burguesinha senta-se ao lado da inerte dona grisalha e deixa cair a mala
aliviada