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sábado, 19 de dezembro de 2009

sir matias



Conhecemo-nos em Sintra. Eu andava a tentar mudar de profissão, sem sequer dar bem por isso, e tu estavas a cumprir pena, infelizmente sem prazo de soltura à vista. Não trocámos correspondência, nem números de telemóvel. Vimo-nos e apaixonámo-nos. Eu que nunca acreditei no amor somente pela empatia visual, fui obrigada a engolir-te pelos olhos logo no primeiro encontro. Ia à procura de uma criatura ainda nova, que se acostumasse rapidamente às manias de um par de donos com profissões liberais (leia-se disfuncionais) e saiste-me tu na rifa do amor canino. Tu, com 30 kg de euforia no lombo, um hiperactivo das jaulas (sempre achei mais apropriado dizer terrorista) e já com um ano de existência que na realidade equivalia a sete.

Alguém se fartou de ti. Foi isso. Tiveste graça enquanto foste igualzinho ao do anúncio, mas depois as tuas bostas de quilo e meio não são nada glamourosas. Vinhas triste e nervoso, mas mal entraste no carro sentaste-te no banco ao lado do meu e encostaste tranquilo a cabeça ao meu ombro. Eu que vinha de óculos escuros e que mal te conhecia, tive que desembaciar os olhos. A primeira refeição que fizeste lá em casa foram umas lâmpadas que ainda estavam embaladas, foi aí que eu percebi a razão da nossa empatia imediata: sir matias, era um ser iluminado.

menina plath


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

divino melancólico


surpreendo-te com pessoa debaixo do braço

tenho um vestido curto

preto

nada sabia das heteronímias

jurei que ele era só um

e que os outros só serviam para trocar postais

ir à bica


aos dezasseis anos

assinei nos livros o meu nome

mas inventei a data

o dia

nunca quis um gps da memória

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

loiça na máquina


tendes detergente em pó ou em cápsulas

escolhei

tendes temporizadores como válvulas peitorais

e contas para pagar em vez de campainhas

e orgasmos vendidos em pacote com picotados

mas não esqueceis a loiça na máquina


terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Avant-garde ou a Batalha do Presente




Vivemos sem dúvida, numa época atípica, descaracterizada de estilo e "a suspensão das utopias" dá uma tonalidade albina às emergentes vanguardas. Batalhar pelo presente, confere-nos uma justeza e honestidade sem par (damos enquanto artistas apenas o que somos em determinado momento), mas é também estar unicamente disponível para o que é concreto. Creio que a suspensão das utopias está associada à máxima bíblica: "ver para crer". Contudo, para ver aquilo que ainda não nasceu, a batalha tem de estabelecer-se entre o eu no presente e um pouco de graduação. Não creio que possamos continuar por muito mais tempo, míopes do futuro.

No teatro, a questão é sintomática. Do ponto de vista do actor, fazer teatro contemporâneo (e não me refiro aos performáticos) é abolir a ideia de personagem. Não existe uma identidade fícticia que temos de criar num espectáculo, usando o corpo e a imaginação. O "actor do século XXI", serve apenas o texto, o papel e expõe-se em absoluto na cena. Apropria-se das palavras do autor e afirma apenas a única certeza que lhe é permitida ter enquanto artista: eu, aqui e agora.


segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

o meu reino por um bibe




Hoje olhei para o senhor da mercearia e reparei que tinha uma bata verde. Fico sempre tão distraída com o bigode farfalhudo, que nunca tinha reparado na indumentária do senhor.

Desde miúda que sempre quis ter um bibe, uma espécie de singular masculino da bata. Um bibe na infância era um aval de convivência vigiada. Uma senha de vestuário que se partilhava com os outros meninos aparentemente à solta. Nunca tive um bibe, nem essa tranquila pseudo-liberdade.

Eu tinha o cabelo curto-barbearia e trepava paragens de autocarros. Em dias excepcionalmente felizes, o meu tio Nini desafiava-me para o break-dance, que consistia em barrarmos o chão da cozinha com manteiga Planta e deslizarmos desde a porta até à parede da varanda, ao som de vinis muito marados. A parte mais perigosa da actividade consistia na limpeza do chão, mas deixávamos esse risco para a avó assim que chegasse a casa. Sempre sujei a minha própria roupa, não havia nenhuma peça de vestuário sagrada que eu pudesse poupar. Mas gostava de ter tido um bibe, daqueles vermelhos aos quadradinho com o meu nome bordado à mão. Já as batas, confesso que dispenso. Estreei-me a trabalhar com uma dessas brancas. Da experiência a única coisa que recordo é uma boca aberta e cariada.






domingo, 13 de dezembro de 2009

certificado de artista



o certificado do artista
é
um enlatado
num armazém estatal
fora do prazo