tenho a sensação de me ter visto nas palavras escritas
procurei nos pensamentos que não consegui apaziguar
o vocabulário certo
será que existe?
e tive medo de ver no teclado só o alfabeto desorganizado
será que sou uma espécie de citador online?
ai esta incapacidade de dizê-lo bem
por isso escrevo
escrevo
porque dos dedos pingam algarismos
quantidades de ternura
volumes de corpos
em nudez absoluta
porque ver-me em aglomerados pontinhos pretos é olhar para mim despida ao espelho
tão nua
jamais verei fotográfica
a imagem de mim
sou amor
apenas isso
a mor
aquela que é
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quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
domingo, 20 de dezembro de 2009
falência imunitária
(banhistas de Pablo Picasso-1922)ter febre é estar muito quentinho no corpo todo e ter as palavras a pairar não dentro, mas à volta da cabeça. tudo nos passa ao lado, entre termómetros e chazinhos terapêuticos, desde que nos deixem praticar aquele desporto meditativo horizontal, a vida parece ter voltado ao seu estado mais essencial e puro: não pensar.
a linha cinzenta metálica ultrapassa os 39ºc. está deitada no sofá da mãe e começa a dizer palavras desconexas, coisas que já aconteceram na sua cabeça e para si são iguais às que aconteceram na vida. a mãe corre para o quarto-de-banho e começa a encher a banheira com água fria. tenta convencê-la a despir-se para entrar nela, mas a filha está febril de alegria e ri-se, gargalha perante a possibilidade de entrar para aquilo que, em seu entender, é uma piscina. vai direita ao quarto e arranca o pijama do corpo, depois põe na cabeça a touca de natação e faz aquecimento de pernas e coluna. entra no quarto-de-banho, diz, estou pronta e mergulha a cabeça e só a cabeça na água fria. a mãe que ficara atónita perante tão estranha figura, ralha-lhe o disparate e vai buscar um toalhão para lhe pôr por cima. volta então para o sofá e diz: a islândia é fabulosa. pena estar falida.
sábado, 19 de dezembro de 2009
sir matias

Conhecemo-nos em Sintra. Eu andava a tentar mudar de profissão, sem sequer dar bem por isso, e tu estavas a cumprir pena, infelizmente sem prazo de soltura à vista. Não trocámos correspondência, nem números de telemóvel. Vimo-nos e apaixonámo-nos. Eu que nunca acreditei no amor somente pela empatia visual, fui obrigada a engolir-te pelos olhos logo no primeiro encontro. Ia à procura de uma criatura ainda nova, que se acostumasse rapidamente às manias de um par de donos com profissões liberais (leia-se disfuncionais) e saiste-me tu na rifa do amor canino. Tu, com 30 kg de euforia no lombo, um hiperactivo das jaulas (sempre achei mais apropriado dizer terrorista) e já com um ano de existência que na realidade equivalia a sete.
Alguém se fartou de ti. Foi isso. Tiveste graça enquanto foste igualzinho ao do anúncio, mas depois as tuas bostas de quilo e meio não são nada glamourosas. Vinhas triste e nervoso, mas mal entraste no carro sentaste-te no banco ao lado do meu e encostaste tranquilo a cabeça ao meu ombro. Eu que vinha de óculos escuros e que mal te conhecia, tive que desembaciar os olhos. A primeira refeição que fizeste lá em casa foram umas lâmpadas que ainda estavam embaladas, foi aí que eu percebi a razão da nossa empatia imediata: sir matias, era um ser iluminado.
quinta-feira, 17 de dezembro de 2009
divino melancólico
quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
loiça na máquina
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