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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

pedro e inês



já passava da meia noite da década seguinte

quando me puxaste a mão desocupada da flute

para dentro da capela

não trocámos alianças

apenas lágrimas à beira de cair

e o fogo-de-artíficio lá fora

chuac

na boca em frente ao senhor

e a testemunha foi um intelectual francês

espreitando à porta

domingo, 3 de janeiro de 2010





3 de Janeiro 1983



Eu tenho cinco anos e sonhei a noite passada que já conseguia andar de bicicleta, sem que o meu pai vá atrás de mim a segurar no banco.

Já consigo ler a palavra PARAR a luzir dentro dos autocarros e percebi a lógica pavloviana, entre carregar no botão vermelho do varão e o consequente letreiro a piscar.

Sei escrever o meu nome, mas só o primeiro e estou quase a deixar de ter medo dos vampiros e do lobo mau do capuchinho vermelho, aquele que caminha de pé e tem umas jardineiras azuis escuras.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009



O vestido azul escuro de seda teve de ser trocado, estava-me grande. Está-me grande. Ofereceram-mo numa caixa de papelão daquelas quadradas, apenas fechadas por uma fita de tecido fazendo um laço. Sempre sonhei receber uma caixa assim, uma fantasia. Desde miúda que esperava pela caixa do presente. Mais do que o próprio presente, a caixa.
Eu tinha quatro ou cinco anos, já não sei e o meu pai, na época carpinteiro de profissão, construiu-me pelo natal um quadro de ardósia em tamanho grande, um banquinho para me poder sentar nele e desenhar horas a fio e ainda um pequeno apagador que fazia da minha imaginação e criação plástica práticas infinitas. Não houve possibilidade de embrulhar tudo isto devido às dimensões do conjunto, por isso o meu pai e a minha mãe colocaram por cima dele um lençol branco. Quando entrei no quarto, apenas vi coberto um volume enorme e aproximei-me a medo daquilo que disseram ser o meu presente de Natal.
Eles não tinham dinheiro para comprar nada, excepto comida e talvez algum tabaco para queimar o tempo. Aquele presente foi construído durante semanas, com trabalho árduo, horas fora da hora, material surripiado da carpintaria, restos, com amor. E só por isso, perdoo-lhes não o terem posto numa caixa de cartão. Foi o melhor presente que recebi. Na vida.
Devolvi o vestido por não me servir, guardei a caixa, ali no quarto e vou lá pôr as cartas que me escreves sempre que estás muito perto de mim. Recebo cartas quando nos olhos olhamos, assim fechados num mesmo envelope.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009




A primeira palavra que eu disse foi avô. A minha mãe aguardava ansiosa por uma reacção minha, empoleirada no parapeito do meu berço cor-de-laranja e soletrava-me entusiasticamente: M-Ã-E. Após um curto silêncio eu disse: A BÔ. Esclareci desde logo o facto de eu ser uma pessoa e de ter vontades próprias, pois desde o berço que me recuso a papaguear.
Bom, deixei de chuchar no dedo a semana passada porque tive vergonha de o fazer ao pé dos putos da creche. Parece impossível, mas não há lá mais ninguém que tenha este hábito tão especial de estar em contacto directo com o seu próprio pulgar. Para me vingar deste desajuste social, fugi da creche. Estou sentada na sanita pequenina e penso como é que me poderei escapulir desta prisão discriminatória, onde não posso comportar-me livremente. Vejo as educadoras entretidas nos baloiços com os outros miúdos, despeço-me secretamente do Sérgio Filipe com um sorriso cúmplice e saio a correr pelas traseiras em direcção à casa dos meus avós. Ando uns metros e começo a chorar de entusiasmo e medo, sempre a correr, sem parar, lembro-me que não sei bem o caminho de volta para casa, mas nada me pode deter, por isso a correria prossegue até esbarrar com um casal de velhos que querem ser simpáticos comigo e encontrar-me a mãe de quem julgam que me perdi. Cabrões dos velhos. De volta à creche, muito envergonhada pela minha fuga frustrada e ainda tive de pedir desculpa aos velhos por ter mentido.
O meu avô é um velho muito simpático e tenho pena, ou melhor, oiço a minha mãe dizer que é pena ele ser bêbedo. Eu nunca o vi chateado por causa disso, quando cheira a vinho da boca é um bocado esquisito, sai-lhe um aroma a dar pró azedo, mas fica sempre muito bem disposto. Põe os vinis a tocar na varanda e canta muito alto mesmo que seja de noite. Eu gosto de estar lá com ele a cantar "Avante Camarada, Avante! Junta a tua à nossa voz! Avante Camarada, avante Camarada e o sol brilhará para todos nós". A minha avó é que não acha graça nenhuma e põe-se aos gritos com ele, às vezes até diz palavrões. A minha avó já me contou que ele quando era novo era muito mau e que lhe batia e que agora só não lhe bate porque está velho e já não tem força. Eu olho para ele a cantar na varanda e custa-me muito acreditar nisso. Custa-me.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009



Ana é a minha amiga capicua. Nasceu um mês depois de mim, mas é mais alta e tem mais cabelos brancos. Ana é silenciosa, sensata e bonita. Dormimos muitas vezes juntas e ela costumava ficar a olhar para mim enquanto adormecia. Às vezes tinha medo.

Vejo nela o meu crescimento e o meu envelhecimento. Ana é um espelho da minha imagem, porque nela consigo ver o que já fui, o que sou agora e que afinal é tudo a mesma coisa. As primeiras rugas: a nossa cara está a ficar amarrotada pelos dias que passam. Não nos vemos muito, apesar de morarmos perto. Não sei se penso nela, se me lembro dela, acho que faz parte de mim de uma forma intrínseca, como uma irmã. Foi nela que nasceu para mim a palavra ternura, um sentimento pueril que senti existir entre nós.

Um dia, bebemos demais e ficámos deitadas num passeio a tirar fotografias conjuntas e a rir. Caladas. Como no dia em que fiquei na sua casa a chorar no quarto ao lado do dela por já ser tão grande. Chamo-lhe amiga capicua pelo enigma que representam os seus olhos e por ser igual estar perto dela no principio e suponho que no fim das coisas.

chá

pretexto para trocarmos risos de açúcar

em cor-de-rosa sentadas

somos mulheres a segredar desejos

com medo de crescermos mais que os sapatos


de tesão

barram-se os scones

quentinhos

e as migalhas ficam presas nos dentes

os cigarros vão queimando no cinzeiro

deixando cinza e fumo

o aquecimento está ligado


não há silêncios

nunca

as palavras circulam de boca em boca

vivas

excepto quando se sopra e se leva

a chávena à boca


sábado, 26 de dezembro de 2009

o queijo dentro do queijo ou o paralelo infinito


O teatro dentro do teatro é um queijo cuja sobredosagem poderá provocar alzheimer nos seus consumidores, pois segundo a tradição o seu consumo excessivo resulta em esquecimento. É um produto muito fabricado e consumido, mas dada a sua digestão dificil e o alto índice de gordura latente é como comer uma coisa que já sabemos que é boa mas que nos cai mal, embora a comamos sempre que se nos depara diante nós. Cada peça de teatro é apenas como um pequeno triângulo do grande queijo da História do Teatro, mas que em si mesma constituiu um queijo uno e independente, no fundo é o queijo dentro do queijo ou seja o princípio do infinito. Dentro desse triângulo há muitas vezes um outro que se mostra sendo o teatral assumido e que faz com que o "grande queijo" pareça igual à vida. A coisa que mais me interessa neste formato é o escancarar as cenas ao espectador/leitor e o mostrar a sua construção sem qualquer espécie de teatrice, pois acredito que só desta forma é possível que o texto de teatro contemporâneo comunique directamente com a estrutura cénica e com os possíveis espectadores.
No que diz respeito a este tipo de queijo/texto, acredito que continue a servir de ratoeira para apanhar alguns espectadores mais conservadores. O queijo vem bem embalado, igualzinho a qualquer outro. Portanto, só o podem cheirar depois de aberto.
Pois para mim, deixemos o teatro ao quadrado e passemos a escrever e a criar o dentro, ou seja o assumir completamente a não teatralidade, o aqui e o agora. Olhar para os actores e escrever para pessoas reais que existem na cena. As personagens já morreram. Bom, mas nem todos os queijos agradam a toda a gente, eu cá sei bem do que gosto.