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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Dejá vu repetitivo ou processo de criação



Li algures que as conversas têm três níveis: pessoas, factos ou ideias, embora a maior parte das vezes não se passe do primeiro nível. Acredito piamente que a nossa identidade reside sobretudo na palavra e na sua enunciação, pois só aqui se nos coloca o conceito da verdade, não se diz falso o ladrar de um cão ou o chilrear de um pássaro, mas à palavra cabe-lhe essa tarefa árdua de encontrar o puro. (...)Repetir é recordar para a frente e para trás mija a burra(...) José Maria Vieira Mendes in A Minha Mulher. Podemos constatar que é através do processo de repetição que o Homem cria e valida a sua identidade. Se não repetissemos os mesmos gestos e entoações como poderiam(os) reconhecer-nos? O mesmo se passa com a História, os acontecimentos trágicos ou "eufóricos" não são meros dejá vus repetitivos? E não continuamos a cometer consecutivamente os mesmos erros? Segundo Slavoj Zizek, o processo de aparição/criação é produto de um mero engano e (digo eu), o erro só surge quando tentamos repetir algo. O mesmo sistema de repetição se aplica ao actor e ao processo de interiorização e vivência de um texto. Só pela repetição chegamos mais longe, ao erro, ao nosso "eu" mais interior e que até à data se tinha revelado inacessível.

domingo, 10 de janeiro de 2010





na noite






é bom andar sobre o arame




sem planos nem rede




ter apenas tabaco e cartão




para dar senhas falsas




e entrar nas festas privadas






ouvir funk vivo




e estar sóbrio




muito limpo




com o cabelo atrás das orelhas




sem risco








sempre gostei de canecas com chocolate e leite antes de passear o cão
não quero passar por mim sem reparar

sábado, 9 de janeiro de 2010

fastio


compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um pão come o pão caga o pão

compra um cão dá-lhe pão caga o cão

revende o cão compra pão caga o pão

compra um pão come pão caga o pão

não compra não come não caga morre


Alberto Pimenta


(Tive a felicidade de privar com este génio e aprendi a subir às mesas da Faculdade para falar.)

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
















ah


o teu sexo é igual ao meu


partilhemos lâminas e cuecas


as depilações e os corrimentos genitais A2


são pormenores insignificantes num altar


casemos


pois.






























quinta-feira, 7 de janeiro de 2010




- Não há nada que eu não consiga fazer.
Pensava a menina sempre que acordava. Saía da sua cama muito larga e pousava os pequenos pés descalços em cima do cimento do poço. Os pais da menina viviam numa casa um pouco distante, mas estavam sempre junto dela tanto ao deitar como ao nascer do dia. A sua mãe vestia-a, puxava-lhe os collans de lã bem acima do umbigo e muitas vezes, fazia-a balouçar pelo cós das meias, dando saltos gigantescos em cima do colchão da cama. Depois, preparava-lhe sempre o pequeno-almoço antes de ela ir para a escola e acompanhava-a até à saída do pátio onde viviam. Ficava a acenar-lhe até desaparecer na estrada. Até ela desaparecer na estrada.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010


quantas sílabas cabem na palavra?

três:

pa-la-vradehonra.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

pedro e inês



já passava da meia noite da década seguinte

quando me puxaste a mão desocupada da flute

para dentro da capela

não trocámos alianças

apenas lágrimas à beira de cair

e o fogo-de-artíficio lá fora

chuac

na boca em frente ao senhor

e a testemunha foi um intelectual francês

espreitando à porta