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segunda-feira, 8 de março de 2010



Dois palmos de língua e um cansaço pendente na trela. Afinal morrer é isto. O cão urina na perna do rapaz que observa ainda a quente, a sua morte no passeio estendida. Lá segue o nórdico canino livremente a vida, sem casota nem dono, procurando apenas uma fêmea que o console. O rapaz espera o resgate divino, mas só lhe aparece um velha e uma bengalada na costas. Drogados! - exclama a alma desdentada e segue o carreiro do cão, zuca zuca, apoiada nas três patas. Mas eis que tudo se transforma quando um rapaz amigo, o amigo deste rapaz, se lembra do célebre boca a boca, cuja saliva é aqui substituida, por uma coca-cola de lata. O milagre do capitalismo! Que grande e temível excitação: começam então a chover dólares em Vila do Conde e o rapaz ressuscitado do casual estrangulamento, põe-se a imigar pensamentos alheios, em vez de pôr notas ao bolso. Agarra-se com dentes e unhas às efabulações dos vizinhos e percebe que alguns são dementes, pois guardam nas despensas interiores material subversivo, maços de notas e detergentes. O melhor será estrangular-se novamente, ouvir vozes é coisa de gente doente. Lá procura então plo canino berlinense, o letal agressor antigo, mas depois de muito percorrer, chega à conclusão que o melhor será esperar e crescer. Deitar-se apenas na cama. Para rapaz, já pensa demais. E pumba, cai-lhe o tecto do quarto. Em cima.

domingo, 7 de março de 2010



dava-me jeito agora um colo
ou alguém que me ajude a pagar a renda
ui que já estou a descompensar
estou tão perto da perfeição
a um triz de um ataque de pânico
e tenho estes cabo de aço na mão
posso telefonar-te? deixa-me telefonar-te
ficas a escutar do outro lado e dizes sim e não e brincas à psicanálise comigo
dói-me a cabeça outra vez esta dor que não passa e eu quero tragédia não quero drama



in Poltrona - monólogo para uma mulher de Cláudia Lucas Chéu

quinta-feira, 4 de março de 2010


tenho música empoleirada na infância


e imagens vagas no abismo da idade adulta

quarta-feira, 3 de março de 2010


uma andorinha não faz alergias

há cacau quente pra beber

e torresmos no pão

tchim tchim

ergo na imaginação lareiras a arder

à nossa

inverno interminável

terça-feira, 2 de março de 2010


impedida

a via respiratória

da emoção


gargalhar

é pôr a chave na ignição

do fígado


não há vodka ou aguardente que fermente a alegria

o riso

faz-me cócegas

e em abundância

mijo

segunda-feira, 1 de março de 2010


fiz sempre questão de cortar o cabelo no barbeiro onde iam os meus primos, bem curto e rente à nuca, nunca quis ser distinguida por atributos físicos. durante muito tempo, achei-me capaz de fazer tudo e de todas as maneiras, não havia impossibilidades para mim.
combinámos encontrar-nos às cinco e um quarto no corredor da casa da avó, mesmo por detrás do bengaleiro, junto à parede. e assim foi, perguntei à minha mãe que horas eram, pois ainda não sabia ler as horas em forma de números, confirmado o tempo exacto lá me dirigi para o corredor. ele já lá estava escondido atrás do casaco de malha azul escuro da avó e eu esgueirei-me para debaixo do kispo do pai pendurado ao lado da malha da avó. somos duas crianças em forma de agasalho, então o que fazemos, perguntei eu, já tenho as chaves do carro, disse-me ele, mas tu sabes conduzir, pergunto novamente eu, claro, aprendi com o meu pai, e então, digo eu, então vamos fugir desta casa, diz ele, mas para onde, pergunto eu, vamos até à praia e depois logo vemos, eu penso. debaixo do kispo do pai, sinto-me a rebentar de adrenalina. imaginar um futuro onde só eu é que sei, eu decido, eu escolho e tantos eu-sítios por descobrir. só eu e o primo joão. e cinco anos de existência ingénua.

domingo, 28 de fevereiro de 2010


o domingo oprime o trabalho

lá fora chove

não tenho roupa para tirar do estendal

que prazer não ser

coçar os olhos

só isso

ou tirar burriés com o dedo mínimo

moluscos de ranho


um xaile pelas costas

e o meu cérebro uma massa gelatinosa em lume brando