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segunda-feira, 26 de abril de 2010


dormir sentado é uma prova dura à nossa coluna vertebral, embora nada importe neste momento, muito menos esse corpo a precisar de alimento e banho. na ante-sala dos cuidados intensivos, sentes-te no foyer de um espectáculo que à partida, vai demorar demasiado tempo e cujos conteúdos não te interessam. tens a boca seca, o melhor será ires tomar o pequeno-almoço. nunca percebeste porque é que uma bica curta e meia-torrada podem ser consideradas um almoço pequeno. quanto muito o primeiro lanche, o primeiro aperitivo do dia.

terça-feira, 20 de abril de 2010


Telemóvel desligado por causa dos radares, das sondas ou que raio é aquilo que no cockpit aparece em forma de esquema. O tipo moreno ao meu lado, não parou quieto nas, até agora, seis horas de vôo. Cheira mal a criatura, a chulé e ao colo leva o corão ou uma treta qualquer em árabe. Verifico uma vez mais na pasta se tenho todas as minhas coisas intactas, apesar de ter brevemente adormecido, foi o tempo suficiente para o meu moreno vizinho pôr as mãos no meu saco. Tudo no sítio. Tudo ok., que é como quem diz o:zero; k: kills. A comissária de bordo pára ao meu lado e fica a olhar para mim. Não pedi nada, não chamei ninguém. Apenas quero aterrar em casa, na minha sala, sozinho, a fumar um cigarro. O meu vizinho do ar, pede num inglês macarronico um copo com água. Está nervoso, o bicho. Sinto-o. Comecei a pensar em terrorismo desde o primeiro momento em que se sentou ao meu lado. Só me faltava isto. Pus um lápis de carvão afiado e a jeito no meio das pernas, não vá o diabo a oriente tecê-las e eu não quero colidir com monumentos patrimónios da humanidade. Vejo-o abrir o livro e com um marcador vermelho começar a sublinhar, o alcorão ou lá o que é aquilo. A vermelho? Só pode ser qualquer coisa estranha, demoníaca. E depois, vejo-o desenhar um boneco com uma bomba na mão. Não consigo conter o choque que coincide com um poço de ar. Lanço um suspiro alto. Ele olha para mim, ri-se. Eu carrego no botão, mesmo por cima da minha cabeça. Estou prestes a gritar ou a espetar-lhe o lápis na aorta. Ele ri-se ainda mais. Põe-me a mão na perna esquerda e diz: bang!

segunda-feira, 19 de abril de 2010


tento evocar a vontade. ser actor também é isto, saber evocar a vontade, saber convocá-la. vontade de brincar, nem sempre a temos. às vezes calha-nos companheiros de brincadeira na cena de quem não gostamos. não sabem brincar, simplesmente desejam pavonear-se no palco, mas no fundo andámos todos à procura do mesmo, que gostem de nós. há um sentimento profundo inerente a todos os actores: ser amado. há quem diga que somos todos frutos de uma educação desatenta, com falhas de atenção na parte dos afectos, por isso queremos ir para cena, para que nos olhem enquanto tentamos mostrar o que de mais puro temos, através das palavras dos outros, mostrar o coração.

sábado, 17 de abril de 2010



aqui e agora
não há palavras que marquem o silêncio
nem a memória lembra quanto vale um minuto
sou um despertador electrónico
na casa de uma velha
tic tac tic tac
e tiro oxigénio da boca
salivo o dia
besunto-o de cuspo
o hoje é um bolo convertido a espaço
olho para o suor da minha blusa
como um ampulheta
o cansaço escorre das axilas
só o meu corpo marca a ruga
aqui e agora
sou um relógio aborrecido com o amor
só o fim é urgente
e o olhar troca-se devagarinho

quarta-feira, 14 de abril de 2010



amo-te




e pinga chuva


miudinha na minha cabeça


está escuro nos labirintos de plástico


e ouve-se shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh



chego por fim ao espelho redondo


mesmo antes de entrar no teu quarto de valium e aspirina


faltam naperons na cómoda e bugigangas baratas


tudo é luxuoso


fino




despenteias-me a meio da exposição


mostro os dentes


rio-me




amo-te


uma duas três quatro cinco seis sete oito nove vezes






terça-feira, 13 de abril de 2010


A luz pendente da estação de serviço assobia um som nocturno e agudo. Cheira a gasolina, a after-shave e mentol. Ele está fechado no ford verde escuro a fumar de vidro entreaberto, enquanto espera a chegada dela na sua velha scooter, cai silenciosa a cacimba. Ouve-se ao longe o som da motorizada. Ele abre a porta do velho ford e esmaga a beata com o pé. Fecha a porta e depois sobe a nesga vidro, fechando-o. Sintoniza o rádio. Pára na clássica, algures no ínicio da paixão de s. mateus de bach. Ela estaciona a mota, longe do ford. Tira o capacete e sacode os caracóis louros escuros. Tap tap tap, os saltos a bater no alcatrão húmido. Aproxima-se dos vidros embaciados do ford e com o dedo médio desenha um coração.

segunda-feira, 12 de abril de 2010


Um fósforo a arder numa mão com luva branca. O bidão de gasolina despejado nos móveis ikea da sala. Labaredas várias a propagarem-se à velocidade da luz. O relógio de sala marca 7 horas. É Inverno. Passos na direcção da porta de saída. O espanta-espíritos agita-se. O vizinho a gritar. Dois vizinhos a gritar. Uma multidão de gente na rua. Sirenes a tocar. A moradia murcha devagar, derrete com o fogo. O telemóvel toca dentro do blusão na viagem de scooter. Ninguém ouve.