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sexta-feira, 10 de dezembro de 2010



quero estar sentada em cima da terra
nua

para que a sinta áspera

dura e húmida

para que a possa arranhar com os dedos dos pés

o chão de calhaus e lama


vou escavando aos poucos um fosso

entre o meu rabo e o centro do mundo

e as minhas unhas enchem-se de vermes

ternamente


eu sou o meu rabo

não é o umbigo que determina a personalidade

é o rabo que mostra que sou besta

animal enfeitado de trapos

disfarçada de pêlos e de pele

sapatos óculos escuros


ninguém repara que a alma é uma anomalia no reino animal

ou alguém espera reencontrar o peixinho vermelho no paraíso?

as escamas são a pele dos bichos cuja memória não lhes permite ter deus


Cláudia Lucas Chéu in Revista Inútil #3

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


agora que tenho moedas


para refrigerantes e bolos


e idas à feira


sinto-me adulta



ser educado para a infelicidade


é um problema




é tão difícil contrariar a natureza das coisas


quinta-feira, 11 de novembro de 2010


não há outro remédio

mezinha ou xarope

a única saída

a cura

é voltar a mim

quinta-feira, 28 de outubro de 2010




nada há de solitário no choro



as lágrimas nascem sempre aos pares






só na tela pinga pinga apenas uma gota desse sal fluído



expressão isolada na face



fio de água que em breve desagua



pierrot mimo burlão






o pinga pinga



(desgosto ou euforia?)



e a palavra



(euforia ou desgosto ou apatia?)



começam atrás



na nuca



e existem por si só não precisam que os descubras


terça-feira, 26 de outubro de 2010


tenho uma úlcera na cabeça


ferida exposta a pensamentos


metralhadora de ideias


lesões gangrenas mucosas




saudades de ser calhau


pedra mármore de encontro ao muro




domingo, 17 de outubro de 2010


aborreço-me

enfastio-me desinteresso-me

quem decide faz necessariamente sorrisos forçados

e comentários sarcásticos

que irritam

acessórios usados



aborreço-me ao fixar pensamentos num caderninho

podem fugir

tal é o tédio


não suporto camas por fazer dá vontade de não ter lençóis nem mantas nem nada

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


os dias são sapatos escuros por engraxar