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segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

o meu reino por um bibe




Hoje olhei para o senhor da mercearia e reparei que tinha uma bata verde. Fico sempre tão distraída com o bigode farfalhudo, que nunca tinha reparado na indumentária do senhor.

Desde miúda que sempre quis ter um bibe, uma espécie de singular masculino da bata. Um bibe na infância era um aval de convivência vigiada. Uma senha de vestuário que se partilhava com os outros meninos aparentemente à solta. Nunca tive um bibe, nem essa tranquila pseudo-liberdade.

Eu tinha o cabelo curto-barbearia e trepava paragens de autocarros. Em dias excepcionalmente felizes, o meu tio Nini desafiava-me para o break-dance, que consistia em barrarmos o chão da cozinha com manteiga Planta e deslizarmos desde a porta até à parede da varanda, ao som de vinis muito marados. A parte mais perigosa da actividade consistia na limpeza do chão, mas deixávamos esse risco para a avó assim que chegasse a casa. Sempre sujei a minha própria roupa, não havia nenhuma peça de vestuário sagrada que eu pudesse poupar. Mas gostava de ter tido um bibe, daqueles vermelhos aos quadradinho com o meu nome bordado à mão. Já as batas, confesso que dispenso. Estreei-me a trabalhar com uma dessas brancas. Da experiência a única coisa que recordo é uma boca aberta e cariada.