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quinta-feira, 14 de junho de 2012


Soy un puto resentido y un puto inadaptado.
Soy un puto actor que hace de perro,
por una puta vez en su puta vida,
[…] porque un perro cobra más que un puto actor.
Angélica Liddell – Perro Muerto in Tintorería: Los Fuertes

1.
Calypso
Eu sou Calypso,
sou a actriz que faz de Calypso.
Sou a protagonista
paga para ser a outra,
escolhida e vestida de puta.
Seleccionada pela cara e pelas mamas,
– reparem no decote babado por velhos de ténis brancos.
O meu currículo foi lido na diagonal,
na horizontal
e é sempre surpreendente o efeito da contracção do diafragma.
Eu sou a deusa da minha classe,
tenho prémios e faço cinema. Sou imortal.
Vivo na merda de uma ilha,
e toda a gente sabe que os habitantes das ilhas não passam de prisoneiros na sua própria terra
e toda a gente sabe que o planeta é todo ele uma ilha,
rodeado do espaço todo, e toda a merda do universo,
mais o infinito em expansão, não passam eles próprios de uma ilha também.
Eu sou a actriz que hipnotiza os espectadores com o meu corpo HD,
e no Teatro sou pernas e rabo em 3D sem precisarem dos óculos.
Sou barata.
Sou cara.
Depende.
Faço-me pagar consoante o conteúdo,
se não me agrada faço-me cara.
Como as putas.
Eu sou a boca da Calipso,
eu sou o final da boca da Calipso.
A actriz que decorou as deixas, mas não entendeu o fim.
Eu estou abaixo das cadelas.
Sempre cheia de cio.
Sou uma cadela com cio.
Sou a actriz que faz de cadela com cio.
Sou exótica.
Sou estúpida.
Estou no final da cadeia alimentar.
Sou mulher.

in Colapso, publicações Teatro Nacional São João, 2011.