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domingo, 26 de dezembro de 2010



agora que oiço as copas abanando folhas ao vento
e mais nada
espreguiço pensamentos lavados
e construo um estendal
dos meus olhos aos teus
carícias de sabão
escorregadias

quem não sabe do silêncio não entende nada e não escutar a pausa é nunca ir a parte nenhuma
estou sempre pronta para viajar
nunca desfaço as malas

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010



a mulher tirou o aparelho


dos dentes


e o pai abraçou-a ternamente


beijou-lhe a testa




estás tão bonita


minha filha


que surpresa




o animal sénior observou atentamente os dentes da cria


todas as facetas das lâminas roedoras


e o amor puro dos dois inundou a sala




alguém chamou o meu nome e ligou a pequena broca

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010



quero estar sentada em cima da terra
nua

para que a sinta áspera

dura e húmida

para que a possa arranhar com os dedos dos pés

o chão de calhaus e lama


vou escavando aos poucos um fosso

entre o meu rabo e o centro do mundo

e as minhas unhas enchem-se de vermes

ternamente


eu sou o meu rabo

não é o umbigo que determina a personalidade

é o rabo que mostra que sou besta

animal enfeitado de trapos

disfarçada de pêlos e de pele

sapatos óculos escuros


ninguém repara que a alma é uma anomalia no reino animal

ou alguém espera reencontrar o peixinho vermelho no paraíso?

as escamas são a pele dos bichos cuja memória não lhes permite ter deus


Cláudia Lucas Chéu in Revista Inútil #3

sexta-feira, 26 de novembro de 2010


agora que tenho moedas


para refrigerantes e bolos


e idas à feira


sinto-me adulta



ser educado para a infelicidade


é um problema




é tão difícil contrariar a natureza das coisas


quinta-feira, 11 de novembro de 2010


não há outro remédio

mezinha ou xarope

a única saída

a cura

é voltar a mim

quinta-feira, 28 de outubro de 2010




nada há de solitário no choro



as lágrimas nascem sempre aos pares






só na tela pinga pinga apenas uma gota desse sal fluído



expressão isolada na face



fio de água que em breve desagua



pierrot mimo burlão






o pinga pinga



(desgosto ou euforia?)



e a palavra



(euforia ou desgosto ou apatia?)



começam atrás



na nuca



e existem por si só não precisam que os descubras


terça-feira, 26 de outubro de 2010


tenho uma úlcera na cabeça


ferida exposta a pensamentos


metralhadora de ideias


lesões gangrenas mucosas




saudades de ser calhau


pedra mármore de encontro ao muro




domingo, 17 de outubro de 2010


aborreço-me

enfastio-me desinteresso-me

quem decide faz necessariamente sorrisos forçados

e comentários sarcásticos

que irritam

acessórios usados



aborreço-me ao fixar pensamentos num caderninho

podem fugir

tal é o tédio


não suporto camas por fazer dá vontade de não ter lençóis nem mantas nem nada

quarta-feira, 6 de outubro de 2010


os dias são sapatos escuros por engraxar

pára-quedas de seda

trampolins de pura lã virgem

e passadeiras de caxemira encarnada


escolher atalhos de polyester é apenas uma questão de estilo


terça-feira, 28 de setembro de 2010



agarra-me pelos cabelos


faz renda de bilros comigo


quero ser um bibelot em cima da tv


espojada num naperon


a olhar para ti


absorto


nas legendas que vês




tanto estrangeirismo num parágrafo dá para fingir estar longe daqui




quarta-feira, 22 de setembro de 2010


habito os meus sonhos

de bibe

e panamá encarnado

o nome torto escrito a caneta de feltro





sempre memorizei as cores dos chapéus de sol

tenho miopia e medo de me perder

segunda-feira, 20 de setembro de 2010


os dias são longos e nós cada vez estamos mais velhos

qualquer dia morremos.


(escrito num caderno meu aos 6 anos de idade, guardado pela mãe numa gaveta da sala)

quinta-feira, 16 de setembro de 2010


no liceu

usava o jornal debaixo do braço

queria entender as notícias


gastei semanadas

em papel impresso a preto e branco

com histórias que não entendia

política e afins

ler puramente

fazer o exercício de juntar sílabas

apenas


sou chefe de redacção das minha ideias

tenho dias


terça-feira, 7 de setembro de 2010


tentei várias poses de sono

fetal

direita e esquerda

escachada de umbigo apontando o tecto

e nada


só desligo o interruptor

de barriga virada para baixo

conto até quarenta mil e um

a luz apaga-se

continuo a brincar às escondidas comigo própria

não sei se gosto

segunda-feira, 6 de setembro de 2010


se houver paraíso

um dia

quando eu morrer

quero um terraço sem vista

e pemitam-me o estrangeirismo

uma chaise-longue

e uma manta

não quero lá mais ninguém

sozinha

acompanhada de todos os livros que não terei tempo para ler em vida



quem disse que a realidade é mais interessante do que a ficção?

segunda-feira, 30 de agosto de 2010


tenho a certeza que um dia

vou gostar de feijões

segunda-feira, 23 de agosto de 2010


deixa a luz de presença acesa


fica escuro na cabeça

uma nesga de visão apenas

miopias de carência

e pensamentos investimento

transporte de alta velocidade


quando um dia voltar à infância

ao ver-me sem soutien nem blusa

orgulhar-me-ei
tábua rasa do que fui

peito e nuca

quinta-feira, 15 de julho de 2010





cresci numa divisão única
num quarto minguante
3 adultos e meio por metro quadrado

cozinha
a um passo em frente
sanita
a um passo ao lado
e na vigia
um cão pendente chamado pluto

eu fugi à catequese
por terror à freira Júlia
não entendia o sorriso colado aos dentes
era mentira
via-se francamente

depois furei as orelhas à pistola e pus-me a chorar baixinho no degrau da igreja
jurei que morreria um dia

domingo, 11 de julho de 2010



não queiras representar
sê apenas
com as tuas merdas todas às costas
erros são uma mochila de campismo

estás sempre em cena
24 horas por dia
é difícil representar sem ponto nem contracena
esta peça contínua
mói
extenua
um dia serei capaz de me representar a mim própria
será fácil
chegar à última página do livro e pousa-lo na estante
ai quantas prateleiras vazias
e tantos bibelots por comprar

segunda-feira, 5 de julho de 2010


imaginemos um pacote de plástico

de conteúdo biológico

com centenas

milhares (?)

de grãos de arroz

todos juntos na asfixia do saco


nus colados uns aos outros

amando-se antes e depois

do tacho


e a maravilha de não saber que é assim a vida

asfixiada cozida e comida

quarta-feira, 30 de junho de 2010


se olharmos com atenção


há sempre um prisma em que um nome próprio não parece bonito

será pela vocalização

ou pla posse?

domingo, 27 de junho de 2010




digo palavrões



insultos variados



sem a mínima sensatez



despejo palavras compridas



seta direitas ao alvo






digo palavrões direitos ao parlamento



em linha recta



o poeta não se mete na política



atira-se contra ela



com toda a força






deito palavrões na bancada de políticos



ácidos desfazendo fatos



bombas armadilhadas em líderes penteados



eles não vão lá com metáforas



é pena









sábado, 26 de junho de 2010




a velha no retrovisor



enfadada



mantendo a pose



de pulseiras e anéis de ouro



agitando-se






não conheço a velhice das coisas feias



gosto de relicários



objectos usados



sujos






tenho um relógio de soldado americano



andou no vietnam



está lá escrito






não sei se chegou a fazer sangue e o tom amarelado do mostrador são os dentes dele com fome












sábado, 19 de junho de 2010



não tive tempo

para chorar


nasci de mochila às costas

e já sabia maneiras elegantes de conjugar palavras


não ri por mim

não tive paciência nem jeito


andei a roubar legumes na horta alheia

a encher a boca de outros para que não pudessem falar

nunca por caridade

fiz algo

apenas pelo silêncio.


sábado, 12 de junho de 2010


conjuga o verbo amar

só no presente do indicativo

é uma conjugação regular

de fácil memorização



e os bichos masturbam-se com simplicidade própria da acção

a chuva não mente

segunda-feira, 7 de junho de 2010



quando tatuar a palavra no ombro direito


de moeda em riste


pedirei um desejo


ou mais






de costas prá fontana di trevi


trinco com os caninos cinquenta cêntimos


e as notas no banco ficam tristes


por não serem vil metal atirado ao mar






o dinheiro traz a felicidade de pedir desejos em locais estrangeiros

a palavra tatuada é fé


domingo, 30 de maio de 2010


haiku


põe-te ao sol a esticar as penas

mulheres de sangue frio aquecem junto aos crocodilos

no rio

domingo, 23 de maio de 2010


vi-te na umbreira da porta

de olhar verde escuro

deixei cair o top

o cinto

os saltos

e os braços

deixei-me estar lânguida e pendente


a gravidade da alcatifa puxa para baixo

os ácaros entram na blusa ainda vestida

a euforia lúcida

sóbria



pensei que estivesses só de passagem entre continentes

e depois
naturalizei-me na tua pátria

segunda-feira, 17 de maio de 2010


a nudez embriaga-nos frente ao espelho

como se explica a atracção entre dois corpos?

partículas de desejo caminham no sentido da colisão


a primavera desperta o cio dos bichos

e das raparigas de cabelos brancos

sábado, 15 de maio de 2010


cada um em u


ensimesmados


encobertos de sono


e conversas atrás das costas


cavalgando.

quarta-feira, 12 de maio de 2010


eu quero arder

cuspir as palavras todas

e incendiar o vácuo

porque não o posso fazer

e depois de cremada

inundar-me de sémen

voltar a nascer


o paradoxo

c´est mon amie

oui


quinta-feira, 6 de maio de 2010


deixem-me escrever à mão

no monitor

vai ficar para sempre

escrito a caneta de feltro

fulana

ama fulano

na diagonal


não se pode aprofundar o amor

quarta-feira, 5 de maio de 2010


O marido dela saiu para ir buscar uma pizza à cidade mais próxima. Ela pôs a mesa, e acendeu velas, não sabendo explicar porquê, sentia-se viva, quase romântica. Lembrou-se do vinho francês do pai que estaria algures na cave. Era uma questão de procurar. Começou a descer as escadas para a cave e os estreitos saltos franceses prenderam-se no antepenúltimo degrau. Caiu desamparada no chão e magoou-se bastante no joelho direito. Ouviu um barulho metálico no canto oposto ao seu, e blasfemou contra a incompetência do antigo caseiro por nunca ter colocado luz suficiente na cave. - Está aí alguém? - perguntou para o ar. Que pergunta tão estúpida pensou, mesmo que estivesse, logicamente que não iria responder. Tentou levantar-se, mas a coisa parecia séria, não conseguia mexer a perna. Gemeu. Ouviu novamente um som metálico. Umas chaves? Uma faca? E ficou arrepiada com estes pensamentos. Depois, ouviu passos na sua direcção, sim, eram passos. E ficou petrificada no chão a olhar para o sítio escuro de onde vinham os passos. "Não se assuste" - disse quase num sussuro a voz. "Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!" - disse ela num grito agudo. Depois, o fugitivo apareceu e pôs-lhe uma mão sapuda na boca. "Chiu cota! Vamos lá a acalmar. Estou aqui para ser teu amigo, nem imaginas quanto. Devias gritar assim de cada vez que olhas para o teu marido. É perigoso o gajo, sabias?" Continuou a tapar-lhe a boca com a mão, mas ela deixou de fazer resistência. "Eu agora vou destapar-te a boca para podermos conversar um bocadinho, pode ser cota? Mas olha, se gritares outra vez, vou ter que te bater. Estamos entendidos?" Ela anuiu com a cabeça. Silêncio. "Mas quem é o senhor e o que é que está a fazer na minha casa? É dinheiro o que quer?" - perguntou nervosíssima a mulher. "Digamos que sou um amigo que tu ainda não conheces, mas que te vai salvar a vida." - disse o sorridente fugitivo. "Eu fiz um acordo com o teu marido. Finjo que assalto a casa e ele limpa-te o sebo". "Isso não é verdade!" - diz ela muito agitada. "Podes crer que é, cota. Queres ver a massa que ele me ofereceu num saquinho de plástico?" O fugitivo vai buscar o saco, abre-o na sua frente. "Não pode ser, é horrível." - diz ela baixinho. "Pois é verdade. Mas olha, para perceberes com eu quero ser amigo e não curto dessas cenas à traição, tenho uma boa proposta para te fazer. Trazes-me um saco igualzinho a este e eu ponho o teu marido prontinho para ir noutro saco, primeiro ao forno e depois para uma lata. Que dizes?". Silêncio entre os dois e algumas lágrimas depois. "Digo que sim, digo que sim. Ajuda-me a subir as escadas?" - diz ela.

terça-feira, 4 de maio de 2010


O marido dela - desde que se casou que perdera a identidade e passara a ser apenas o companheiro de, o homem da - aproveitando o tempo do sono induzido na anafada esposa (através de ingredientes químicos postos no jantar), desceu devagar as escadas que o conduziam à cave e ao seu cúmplice. Debaixo do braço uma garrafa de whisky e dois copos, cumprindo o desejo de selar o negócio pela boca e pelas palavras. O fugitivo pouco dado a eventos sociais, emborcou de um trago um terço da garrafa, obviamente sem agradecer ao anfitrião: - "E é mesmo só isso o que queres? Olha que esta merda não é um filme, eu não sou gajo para brincadeiras. Eu finjo que te roubo a casa, tudo bem, mas e depois? Quanto é que calha aqui ao Zé?" - perguntou-lhe com lábios reluzindo e atirando ainda bafo a Jack Daniels. - "Ah, e pagas adiantado. Antes do assalto, quero tudo na minha mão, em notas."


O marido dela manteve-se calado por um momento. Depois, voltou a subir a escada da cave e deixou o fugitivo novamente só. - "Acho bem que tenhas ido buscar a massa. Estes cabrões dos ricos! "- falou de si para si, o fugitivo excitado com o plano que pouco trabalho e muita recompensa lhe traria. De novo os passos do marido a descer as escadas e um som a plástico roçando contra as pernas. O marido pousa o saco no chão e mostra-lhe um maço. -"É todo para si. Pode contá-lo, se quiser." - diz-lhe o futuro viúvo. O fugitivo musculado, aproxima-se do saco e conta por alto dos vários maços, vê-se que há outro pensamento que o ocupa. "Podes tratar-me por tu. Agora que somos quase amigos. Eu já percebi o teu plano, perfeitamente. É simples, eficiente. Só ainda não percebi como é que vais matar a tua cota". Novamente silêncio na cave. Depois o fugitivo insulflado prossegue: -"Sabes que na prisa não havia mulheres. E eu habituei-me a outros prazeres. Estás a perceber? E fica descansado que eu sou um túmulo. Com os segredos. Entre nós. Um túmulo. Estás a perceber? Tu para cota, até nem és feio. E cheiras bem."

segunda-feira, 3 de maio de 2010


happy

com dois pês

é igual a contente com dois tês

ambas são consoantes velozes

e mudas

domingo, 2 de maio de 2010


cozinhar e pôr no lixo

um tacho

de massa


a azia é coisa que surge subitamente

quarta-feira, 28 de abril de 2010


o que dizer da esquizofrenia
dos aspirantes a coisa nenhuma
e o que fazer a criaturas que habitam num mesmo texto?
o que dizer do cadáver muito esquisito da inveja em portugal
nunca mais chega o dia
do levantamento dos ossos

as serpentes do tear
começam por aprender um crochet ligeiro
de palavras sobre os outros
as opiniões às vezes são coitos interrompidos
imaginados
e o careca tem pentes como armas na gaveta
se o quiserem amar
falem baixinho
o poeta não precisa da bateria alheia
bate textos à noite na varanda
e ainda vos convida pra beber um copo
ele é rei cláudio
e vós
ingénuo hamlet

ai tantos nomes e ninguém por quem chamar

segunda-feira, 26 de abril de 2010


dormir sentado é uma prova dura à nossa coluna vertebral, embora nada importe neste momento, muito menos esse corpo a precisar de alimento e banho. na ante-sala dos cuidados intensivos, sentes-te no foyer de um espectáculo que à partida, vai demorar demasiado tempo e cujos conteúdos não te interessam. tens a boca seca, o melhor será ires tomar o pequeno-almoço. nunca percebeste porque é que uma bica curta e meia-torrada podem ser consideradas um almoço pequeno. quanto muito o primeiro lanche, o primeiro aperitivo do dia.

terça-feira, 20 de abril de 2010


Telemóvel desligado por causa dos radares, das sondas ou que raio é aquilo que no cockpit aparece em forma de esquema. O tipo moreno ao meu lado, não parou quieto nas, até agora, seis horas de vôo. Cheira mal a criatura, a chulé e ao colo leva o corão ou uma treta qualquer em árabe. Verifico uma vez mais na pasta se tenho todas as minhas coisas intactas, apesar de ter brevemente adormecido, foi o tempo suficiente para o meu moreno vizinho pôr as mãos no meu saco. Tudo no sítio. Tudo ok., que é como quem diz o:zero; k: kills. A comissária de bordo pára ao meu lado e fica a olhar para mim. Não pedi nada, não chamei ninguém. Apenas quero aterrar em casa, na minha sala, sozinho, a fumar um cigarro. O meu vizinho do ar, pede num inglês macarronico um copo com água. Está nervoso, o bicho. Sinto-o. Comecei a pensar em terrorismo desde o primeiro momento em que se sentou ao meu lado. Só me faltava isto. Pus um lápis de carvão afiado e a jeito no meio das pernas, não vá o diabo a oriente tecê-las e eu não quero colidir com monumentos patrimónios da humanidade. Vejo-o abrir o livro e com um marcador vermelho começar a sublinhar, o alcorão ou lá o que é aquilo. A vermelho? Só pode ser qualquer coisa estranha, demoníaca. E depois, vejo-o desenhar um boneco com uma bomba na mão. Não consigo conter o choque que coincide com um poço de ar. Lanço um suspiro alto. Ele olha para mim, ri-se. Eu carrego no botão, mesmo por cima da minha cabeça. Estou prestes a gritar ou a espetar-lhe o lápis na aorta. Ele ri-se ainda mais. Põe-me a mão na perna esquerda e diz: bang!

segunda-feira, 19 de abril de 2010


tento evocar a vontade. ser actor também é isto, saber evocar a vontade, saber convocá-la. vontade de brincar, nem sempre a temos. às vezes calha-nos companheiros de brincadeira na cena de quem não gostamos. não sabem brincar, simplesmente desejam pavonear-se no palco, mas no fundo andámos todos à procura do mesmo, que gostem de nós. há um sentimento profundo inerente a todos os actores: ser amado. há quem diga que somos todos frutos de uma educação desatenta, com falhas de atenção na parte dos afectos, por isso queremos ir para cena, para que nos olhem enquanto tentamos mostrar o que de mais puro temos, através das palavras dos outros, mostrar o coração.

sábado, 17 de abril de 2010



aqui e agora
não há palavras que marquem o silêncio
nem a memória lembra quanto vale um minuto
sou um despertador electrónico
na casa de uma velha
tic tac tic tac
e tiro oxigénio da boca
salivo o dia
besunto-o de cuspo
o hoje é um bolo convertido a espaço
olho para o suor da minha blusa
como um ampulheta
o cansaço escorre das axilas
só o meu corpo marca a ruga
aqui e agora
sou um relógio aborrecido com o amor
só o fim é urgente
e o olhar troca-se devagarinho

quarta-feira, 14 de abril de 2010



amo-te




e pinga chuva


miudinha na minha cabeça


está escuro nos labirintos de plástico


e ouve-se shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh



chego por fim ao espelho redondo


mesmo antes de entrar no teu quarto de valium e aspirina


faltam naperons na cómoda e bugigangas baratas


tudo é luxuoso


fino




despenteias-me a meio da exposição


mostro os dentes


rio-me




amo-te


uma duas três quatro cinco seis sete oito nove vezes






terça-feira, 13 de abril de 2010


A luz pendente da estação de serviço assobia um som nocturno e agudo. Cheira a gasolina, a after-shave e mentol. Ele está fechado no ford verde escuro a fumar de vidro entreaberto, enquanto espera a chegada dela na sua velha scooter, cai silenciosa a cacimba. Ouve-se ao longe o som da motorizada. Ele abre a porta do velho ford e esmaga a beata com o pé. Fecha a porta e depois sobe a nesga vidro, fechando-o. Sintoniza o rádio. Pára na clássica, algures no ínicio da paixão de s. mateus de bach. Ela estaciona a mota, longe do ford. Tira o capacete e sacode os caracóis louros escuros. Tap tap tap, os saltos a bater no alcatrão húmido. Aproxima-se dos vidros embaciados do ford e com o dedo médio desenha um coração.

segunda-feira, 12 de abril de 2010


Um fósforo a arder numa mão com luva branca. O bidão de gasolina despejado nos móveis ikea da sala. Labaredas várias a propagarem-se à velocidade da luz. O relógio de sala marca 7 horas. É Inverno. Passos na direcção da porta de saída. O espanta-espíritos agita-se. O vizinho a gritar. Dois vizinhos a gritar. Uma multidão de gente na rua. Sirenes a tocar. A moradia murcha devagar, derrete com o fogo. O telemóvel toca dentro do blusão na viagem de scooter. Ninguém ouve.

domingo, 11 de abril de 2010


ontem conheci o frederico lourenço. de pullover azul petróleo e calças em bege, tão gentil. falou-me da grécia antiga e das suas tragédias. fiquei encantada por comunicar olhos-nos-olhos com o mensageiro-mor da Odisseia.


"Agora compreendo."
- diz o protagonista desprevenido da tragédia. só é realmente trágico quem erra sem saber. a tragédia só está próxima do inocente.

sábado, 10 de abril de 2010


theatron = lugar para se olhar + com interesse



as fórmulas são receitas de culinária

boas para pôr no lixo

fora do tacho são apenas teorias

se ao menos levantassem problemas

a tampa

o texto



sexta-feira, 9 de abril de 2010


põe-te na fila para o mar
- diz a mãe à miúda que chora

põe-te na fila para o leite, mãe
deitas fervura por tudo e nada
afinal não estás azeda
como aquelas florzinhas amarelas que comi na primavera
antes das rinites alérgicas
fiz sexo no mato
e tirei fotografias
revelei-as publicamente

a natureza serve para fazermos analogias
comparamo-nos com tudo o que nos é distante