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terça-feira, 29 de dezembro de 2009




A primeira palavra que eu disse foi avô. A minha mãe aguardava ansiosa por uma reacção minha, empoleirada no parapeito do meu berço cor-de-laranja e soletrava-me entusiasticamente: M-Ã-E. Após um curto silêncio eu disse: A BÔ. Esclareci desde logo o facto de eu ser uma pessoa e de ter vontades próprias, pois desde o berço que me recuso a papaguear.
Bom, deixei de chuchar no dedo a semana passada porque tive vergonha de o fazer ao pé dos putos da creche. Parece impossível, mas não há lá mais ninguém que tenha este hábito tão especial de estar em contacto directo com o seu próprio pulgar. Para me vingar deste desajuste social, fugi da creche. Estou sentada na sanita pequenina e penso como é que me poderei escapulir desta prisão discriminatória, onde não posso comportar-me livremente. Vejo as educadoras entretidas nos baloiços com os outros miúdos, despeço-me secretamente do Sérgio Filipe com um sorriso cúmplice e saio a correr pelas traseiras em direcção à casa dos meus avós. Ando uns metros e começo a chorar de entusiasmo e medo, sempre a correr, sem parar, lembro-me que não sei bem o caminho de volta para casa, mas nada me pode deter, por isso a correria prossegue até esbarrar com um casal de velhos que querem ser simpáticos comigo e encontrar-me a mãe de quem julgam que me perdi. Cabrões dos velhos. De volta à creche, muito envergonhada pela minha fuga frustrada e ainda tive de pedir desculpa aos velhos por ter mentido.
O meu avô é um velho muito simpático e tenho pena, ou melhor, oiço a minha mãe dizer que é pena ele ser bêbedo. Eu nunca o vi chateado por causa disso, quando cheira a vinho da boca é um bocado esquisito, sai-lhe um aroma a dar pró azedo, mas fica sempre muito bem disposto. Põe os vinis a tocar na varanda e canta muito alto mesmo que seja de noite. Eu gosto de estar lá com ele a cantar "Avante Camarada, Avante! Junta a tua à nossa voz! Avante Camarada, avante Camarada e o sol brilhará para todos nós". A minha avó é que não acha graça nenhuma e põe-se aos gritos com ele, às vezes até diz palavrões. A minha avó já me contou que ele quando era novo era muito mau e que lhe batia e que agora só não lhe bate porque está velho e já não tem força. Eu olho para ele a cantar na varanda e custa-me muito acreditar nisso. Custa-me.