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segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Ser ou não ser MAOA


Segundo um grupo de cientistas americanos, a bondade e/ou a maldade humana – ao contrário do que as religiões nos querem fazer crer com as incontornáveis influências divinas ou demoníacas – é  praticamente da exclusividade genética, ou mais propriamente de uma enzima chamada MAOA, responsável pela produção da agressividade.  É óbvio que para se ser criminoso, não basta nascer com um cérebro com alta produção desta enzima,  pois segundo as experiências efectuadas com um grupo de jovens, apenas os que tiveram infâncias com ambientes problemáticos e/ou violentos desenvolveram certas disfunções ligadas à psicopatia. Neste contexto, seria relevante, considerarmos a infância, e a actividade cerebral de Duarte Lima e as recentes acusações de homicídio qualificado de Rosalina Ribeiro por Terras de Vera Cruz. Olhando para o vulgar crânio do dito ex-ministro – praticamente despovoado de pilosidade, é certo – nada nos leva a concluir ser a prática paranormal desta enzima a causa mais do que certa do hediondo crime cometido. Contudo uma vez que a disfunção desta enzima não é visível a olho nu, atribuir-lhe a responsabilidade pela já divulgada atrocidade desumana – ainda nada está provado legalmente e até ao julgamento toda a gente é inocente – seria totalmente especulativo e despropositado. Não podemos contudo excluir esta possibilidade e a sanguinária acção  do dito cavalheiro, pode ter sido obra não da sua própria vontade, mas da junção explosiva: MAOA + Um-tau-tau-valente-na infância. Certamente que gostaríamos também de saber se já foi descoberta a enzima que conduz de forma inevitável uma pessoa - aparentemente normal - à prática da vigarice, assim ser-nos-ia possível detectar com antecedência casos graves de descontrole de seriedade, evitando cairmos constantemente no chamado “Conto do Vigário”. E seria também interessante, submeter toda a actual classe política ao dito exame de cerebelo, verificando a sua actividade interna – já que a externa conseguimos observar através do Canal Parlamento – com o intuito de diagnosticar cada caso como um potencial, ser ou não ser(-se) MAOA.


quinta-feira, 20 de outubro de 2011


mulher estou sempre a dizer a mesma frase é sempre a mesma apenas lhe troco as voltas
sinto o mesmo diga A ou B ou C
misturo-as na boca
baralho de cartas
e cuspo-as com toda a força
que se entenda quem as lê pelos ouvidos
às palavras
ontem saí de casa direita ao teatro
e pus-me a andar às voltas porque não conseguia entrar pela porta onde diz artista
dei para aí vinte voltas vinte voltas
eu
eu a mula da feira a girar
eu sem tickets vendidos
esgotada

in Mesa 4 de Cláudia Lucas Chéu

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

E pensar é difícil, quem o diz não sou eu, mas o Deleuze. Não me considero um pensador, um filósofo, enfim, um onanista do intelecto. Não passo de um punheteiro de considerações fugazes, mas um dia, quem sabe, talvez chegue a grandes masturbações, sem ejacular, sequer. Tornar-se-ão ideias de reserva, só minhas, mas até lá permitam-me vir convosco. Estão a acompanhar?
in Circle Jerk de Cláudia Lucas Chéu

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

puta que pariu a crise
capitalismo capitalismo capitalismo
a europa é uma bolsa de valores rasgada
puta que pariu a europa
feira de antiguidades podre
capitalismo capitalismo capitalismo
puta que pariu os americanos
os sul americanos
os da áfrica e os da ásia
basta-nos um visa não precisamos de identidade
capitalismo capitalismo capitalismo

Afinal que puta é que pariu esta merda toda?

sábado, 16 de julho de 2011


Actriz

São horas, estimados desconhecidos, são horas.

De brindar a mim e a vós – tchim tchim!

Quem aqui está diante de vossos olhos,

é uma mulher – actriz de profissão e amadora de tábuas – que não se deixa intimidar.

Em vez de recuar, avança firme para a festa.

São horas, estimados desconhecidos, de vos prôpor um brinde

- regado a champanhe, claro está -

à nossa imensa alegria e a esta falsa modéstia:

vossa por fingirem nada esperar

e minha por me esticar no embaraço.

(Bebe champanhe)

Esta mulher – de carácter curioso - muitas vezes se pergunta:

- Andamos sempre à procura da verdade? Que mal tem a mentira?

- Que mal nos fez?

Estimados desconhecidos, retórica pura. Adiante.

Quem aqui está diante de vós,

intérprete e debitadora de palavras alheias, deseja que este jogo comece, agora.

E depois veremos,

se mais iludido é aquele que faz ou o que consente apenas.

Tchim tchim!

À minha, estimados desconhecidos, à minha.

Com a vossa licença, começo eu.

in Irene de Cláudia Lucas Chéu

quinta-feira, 9 de junho de 2011


conheceu o pai aos quarenta
e quer dar seguimento ao seu legado
são criativos os desígnios dos afectos
e devemos desconfiar da genética

precisamos de uma bolsa para empreender o futuro
antes que venha o Inverno
e a gravidade nos puxe para a cova
sempre achei que os linfomas não apreciam o frio

sexta-feira, 13 de maio de 2011


o acanhamento asfixia
portanto
despe-te
põe-te nua
ninguém te vai penetrar a cabeça com ideias sujas
há nódoas que são condecorações
acredita
sinais na pele
que algum deus marcou deixando uma pista




sábado, 16 de abril de 2011



sou um guardanapo de linho
com as iniciais bordadas a branco
a minha existência é apenas uma textura invisível
que recolhe gordura dos lábios
amacia colos e peitos

desejo de candura e branco
numa santíssima refeição
aristocrático linho
soberano tecido na hierarquia do limpo

sou um acessório na tua mesa
o mais dispendioso dos pormenores
a minha presença notar-se-á no esquecimento
ninguém escreverá a tinta sobre a minha superfície
não sou de papel

LINHO MADE IN LINHÓ



segunda-feira, 4 de abril de 2011




Nunca usei um bibe de tafetá

Faço chazinhos de plástico e mastigo bolinhos invisíveis

Sou a Barbie vegetariana

Esta filha é nova

A antiga levou um tiro


Tenho pedra nos dentes mas rio-me mostrando os caninos

Uma vez matei uma mosca

quarta-feira, 30 de março de 2011


sou da estirpe das mulheres maduras
nada é irreflectido nos meus actos
aprendi a atar os sapatos
sozinha

contento-me com muito
há necessidades impossíveis de satisfazer

quinta-feira, 17 de março de 2011


dramatiker

sou um indivíduo que acato as ordens
um homem que não está desiludido com as pessoas
- elas fazem o que podem

o pai da inês sou eu
tenho uma ferida profunda no crânio

os filhos não são bolas de ping-pong
têm de estar fora do tabuleiro

uma vez escrevi
com amor
na dedicatória de um livro que lhe dei mas a minha cria não reparou

um beijo inês e quando tiveres oportunidade
dá-me um sinal que eu vou buscar-te


domingo, 27 de fevereiro de 2011


a menina da lapa
não escreve
apenas decora a folha

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011


Fala e Didascália estão sentadas na boca de cena.

Didascália - E se eu nunca dissesse nada?
Fala - Era óptimo.
Didascália - Sei que não aprecias no meu trabalho.
Fala - É bom que saibas que não mandas em mim.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011


tenho um único paradigma
na vida
um pai camponês
que nunca dormiu
nem sequer cabeceou

agora entendo
sou crescida e incrédula criatura

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011


o chinês de queluz
absorto
na carruagem dos subúrbios
a ouvir hip hop

e a mulher à sua frente
dormindo exausta
sonhos shop soi
de rafeiros tenros

domingo, 2 de janeiro de 2011


à porta das urgências
deitada na maca
a dona grisalha
tem as mãos juntas numa prece
e as unhas pintadas de prateado
lascadas

a filha anafada
burguesinha expedita de cabelo palha-de-aço
descolorado
pede o livro de reclamações
e firme escreve o obituário da mãe
zangada
pagou todas as mensalidades do documento que lhe prometia vida
sem falhar uma
e foi enganada

a burguesinha senta-se ao lado da inerte dona grisalha e deixa cair a mala
aliviada