Número total de visualizações de página

quarta-feira, 28 de abril de 2010


o que dizer da esquizofrenia
dos aspirantes a coisa nenhuma
e o que fazer a criaturas que habitam num mesmo texto?
o que dizer do cadáver muito esquisito da inveja em portugal
nunca mais chega o dia
do levantamento dos ossos

as serpentes do tear
começam por aprender um crochet ligeiro
de palavras sobre os outros
as opiniões às vezes são coitos interrompidos
imaginados
e o careca tem pentes como armas na gaveta
se o quiserem amar
falem baixinho
o poeta não precisa da bateria alheia
bate textos à noite na varanda
e ainda vos convida pra beber um copo
ele é rei cláudio
e vós
ingénuo hamlet

ai tantos nomes e ninguém por quem chamar

segunda-feira, 26 de abril de 2010


dormir sentado é uma prova dura à nossa coluna vertebral, embora nada importe neste momento, muito menos esse corpo a precisar de alimento e banho. na ante-sala dos cuidados intensivos, sentes-te no foyer de um espectáculo que à partida, vai demorar demasiado tempo e cujos conteúdos não te interessam. tens a boca seca, o melhor será ires tomar o pequeno-almoço. nunca percebeste porque é que uma bica curta e meia-torrada podem ser consideradas um almoço pequeno. quanto muito o primeiro lanche, o primeiro aperitivo do dia.

terça-feira, 20 de abril de 2010


Telemóvel desligado por causa dos radares, das sondas ou que raio é aquilo que no cockpit aparece em forma de esquema. O tipo moreno ao meu lado, não parou quieto nas, até agora, seis horas de vôo. Cheira mal a criatura, a chulé e ao colo leva o corão ou uma treta qualquer em árabe. Verifico uma vez mais na pasta se tenho todas as minhas coisas intactas, apesar de ter brevemente adormecido, foi o tempo suficiente para o meu moreno vizinho pôr as mãos no meu saco. Tudo no sítio. Tudo ok., que é como quem diz o:zero; k: kills. A comissária de bordo pára ao meu lado e fica a olhar para mim. Não pedi nada, não chamei ninguém. Apenas quero aterrar em casa, na minha sala, sozinho, a fumar um cigarro. O meu vizinho do ar, pede num inglês macarronico um copo com água. Está nervoso, o bicho. Sinto-o. Comecei a pensar em terrorismo desde o primeiro momento em que se sentou ao meu lado. Só me faltava isto. Pus um lápis de carvão afiado e a jeito no meio das pernas, não vá o diabo a oriente tecê-las e eu não quero colidir com monumentos patrimónios da humanidade. Vejo-o abrir o livro e com um marcador vermelho começar a sublinhar, o alcorão ou lá o que é aquilo. A vermelho? Só pode ser qualquer coisa estranha, demoníaca. E depois, vejo-o desenhar um boneco com uma bomba na mão. Não consigo conter o choque que coincide com um poço de ar. Lanço um suspiro alto. Ele olha para mim, ri-se. Eu carrego no botão, mesmo por cima da minha cabeça. Estou prestes a gritar ou a espetar-lhe o lápis na aorta. Ele ri-se ainda mais. Põe-me a mão na perna esquerda e diz: bang!

segunda-feira, 19 de abril de 2010


tento evocar a vontade. ser actor também é isto, saber evocar a vontade, saber convocá-la. vontade de brincar, nem sempre a temos. às vezes calha-nos companheiros de brincadeira na cena de quem não gostamos. não sabem brincar, simplesmente desejam pavonear-se no palco, mas no fundo andámos todos à procura do mesmo, que gostem de nós. há um sentimento profundo inerente a todos os actores: ser amado. há quem diga que somos todos frutos de uma educação desatenta, com falhas de atenção na parte dos afectos, por isso queremos ir para cena, para que nos olhem enquanto tentamos mostrar o que de mais puro temos, através das palavras dos outros, mostrar o coração.

sábado, 17 de abril de 2010



aqui e agora
não há palavras que marquem o silêncio
nem a memória lembra quanto vale um minuto
sou um despertador electrónico
na casa de uma velha
tic tac tic tac
e tiro oxigénio da boca
salivo o dia
besunto-o de cuspo
o hoje é um bolo convertido a espaço
olho para o suor da minha blusa
como um ampulheta
o cansaço escorre das axilas
só o meu corpo marca a ruga
aqui e agora
sou um relógio aborrecido com o amor
só o fim é urgente
e o olhar troca-se devagarinho

quarta-feira, 14 de abril de 2010



amo-te




e pinga chuva


miudinha na minha cabeça


está escuro nos labirintos de plástico


e ouve-se shhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh



chego por fim ao espelho redondo


mesmo antes de entrar no teu quarto de valium e aspirina


faltam naperons na cómoda e bugigangas baratas


tudo é luxuoso


fino




despenteias-me a meio da exposição


mostro os dentes


rio-me




amo-te


uma duas três quatro cinco seis sete oito nove vezes






terça-feira, 13 de abril de 2010


A luz pendente da estação de serviço assobia um som nocturno e agudo. Cheira a gasolina, a after-shave e mentol. Ele está fechado no ford verde escuro a fumar de vidro entreaberto, enquanto espera a chegada dela na sua velha scooter, cai silenciosa a cacimba. Ouve-se ao longe o som da motorizada. Ele abre a porta do velho ford e esmaga a beata com o pé. Fecha a porta e depois sobe a nesga vidro, fechando-o. Sintoniza o rádio. Pára na clássica, algures no ínicio da paixão de s. mateus de bach. Ela estaciona a mota, longe do ford. Tira o capacete e sacode os caracóis louros escuros. Tap tap tap, os saltos a bater no alcatrão húmido. Aproxima-se dos vidros embaciados do ford e com o dedo médio desenha um coração.

segunda-feira, 12 de abril de 2010


Um fósforo a arder numa mão com luva branca. O bidão de gasolina despejado nos móveis ikea da sala. Labaredas várias a propagarem-se à velocidade da luz. O relógio de sala marca 7 horas. É Inverno. Passos na direcção da porta de saída. O espanta-espíritos agita-se. O vizinho a gritar. Dois vizinhos a gritar. Uma multidão de gente na rua. Sirenes a tocar. A moradia murcha devagar, derrete com o fogo. O telemóvel toca dentro do blusão na viagem de scooter. Ninguém ouve.

domingo, 11 de abril de 2010


ontem conheci o frederico lourenço. de pullover azul petróleo e calças em bege, tão gentil. falou-me da grécia antiga e das suas tragédias. fiquei encantada por comunicar olhos-nos-olhos com o mensageiro-mor da Odisseia.


"Agora compreendo."
- diz o protagonista desprevenido da tragédia. só é realmente trágico quem erra sem saber. a tragédia só está próxima do inocente.

sábado, 10 de abril de 2010


theatron = lugar para se olhar + com interesse



as fórmulas são receitas de culinária

boas para pôr no lixo

fora do tacho são apenas teorias

se ao menos levantassem problemas

a tampa

o texto



sexta-feira, 9 de abril de 2010


põe-te na fila para o mar
- diz a mãe à miúda que chora

põe-te na fila para o leite, mãe
deitas fervura por tudo e nada
afinal não estás azeda
como aquelas florzinhas amarelas que comi na primavera
antes das rinites alérgicas
fiz sexo no mato
e tirei fotografias
revelei-as publicamente

a natureza serve para fazermos analogias
comparamo-nos com tudo o que nos é distante

quinta-feira, 8 de abril de 2010


falso alarme

afinal o diplomata não fumou no avião

tentava incendiar os sapatos

só isso

foi escoltado pela razão

e apagou as tenras chamas

com vómito

quarta-feira, 7 de abril de 2010


quando a nossa cabeça se antipatiza por nós

não há ampolas que fertilizem alegria

só cortando a raíz na guilhotina

a maria antonieta não envelheceu deprimida


não sou o tipo de pessoa que anda com lenços de papel na mala

terça-feira, 6 de abril de 2010



"Mad Girl's Love Song "
Sylvia Plath





I shut my eyes and all the world drops dead;
I lift my lids and all is born again.
(I think I made you up inside my head.)


The stars go waltzing out in blue and red,
And arbitrary blackness gallops in:
I shut my eyes and all the world drops dead.


I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)


God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.


I dreamed that you bewitched me into bed
And sung me moon-struck, kissed me quite insane.
(I think I made you up inside my head.)


God topples from the sky, hell's fires fade:
Exit seraphim and Satan's men:
I shut my eyes and all the world drops dead.


I fancied you'd return the way you said,
But I grow old and I forget your name.
(I think I made you up inside my head.)


I should have loved a thunderbird instead;
At least when spring comes they roar back again.
I shut my eyes and all the world drops dead.
(I think I made you up inside my head.)

segunda-feira, 5 de abril de 2010


Mergulhou de olhos abertos, tentando certificar-se através de outro sentido aquilo que, apenas pelo tacto lhe parecia um equívoco, uma distorção da realidade, mas as órbitas esbugalhadas e submersas não atingiam mais do que o turvo verdete do mar agora sem ondas, de rastos, contrariando o enrolanço violento com que há pouco se debatera. Por isso, tornou ao braille genital e comprovou atráves dos dedos a penugem marítima comportando-se como algas. Afastou-se novamente da margem e continuou dando às pernas e aos braços, enervando-se muito por estar sem pé e sem cuecas, pôs-se a blasfemar baixinho às ondas, às marés que lhe levaram o fato. Até quando aguentaria a Sra. Marques nua dando às barbatanas? Mas onde é que se enfiara o fato? Na praia, só um velho sentado a ler o jornal, talvez nem reparasse na sua saída de alforreca murcha, balzaquiana. Já os mamilos lhe começavam a roxear, por isso começou a nadar de rabo exposto na direcção da areia. E depois, pensando uma segunda vez na resolução da sua nudez, viu-se na eminência única de se dirigir ao cavalheiro, pedindo-lhe cobertura. Está a Sra. Dona Marques toda nua de barbatanas aproximando-se do informado cidadão, quando medindo mal a rasteira duna, tropeça e cai com mau jeito na areia seca. Fica então um croquete de senhora e congratula-se com tal situação, pois cheia de areia disfarça os volumes e as cores que em pormenor caracterizam o seu género. Retoma a tosca marcha na direcção do leitor e põe-se na sua melhor posição de senhora, fazendo sombra à leitura do cavalheiro:
- O senhor sabe que horas são?
O leitor de notícias perplexo, qual varejeira em plena sardinhada no Verão:
- Desculpe, mas não trouxe o meu relógio.
E ela:
- Eu acho que já está a ficar tarde, não tarda e cai o crepúsculo. O senhor importa-se de me dar o seu casaco?

domingo, 4 de abril de 2010


menina à procura do pai no meio de uma exposição de arte:

pai, reconheci-te pela tua tosse. não podias fazer uma tosse assim. diferente. não sei.


jesus à procura do pai no paraíso:

idem idem aspas aspas

sexta-feira, 2 de abril de 2010


esqueci-me de apontar as ideias num bloco

fugiram todas atadas num balão

e o meu cachorro comeu as páginas em rosa lisas


vou buscar amêndoas

e comê-las à fartazana

mas só as de chocolate

as de açúcar são rijas

e magoam as gengivas