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quarta-feira, 31 de março de 2010



o artista cansado


deita a cabeça no braço do violino


cem mil pessoas a ver


mais duas câmaras frente ao palco


violinista reformado


barbudo


pousa o canino queixo


de beiços caídos


olhos fechados na primeira linha


dorme durante a paixão


são mateus


dorme tranquilo


à sua volta mais de duzentos músicos


em actividade


escarnecendo do sono


e o maestro coxo


são mateus


o maestro coxo navega na partitura


submerge


levita


até ao sagrado




dentro de bach estão todas as coisas que desconheço

segunda-feira, 29 de março de 2010

quero pensar na perfeição que não atingirei


e no riso do fracasso visto de cima para baixo





quero rir-me das teorias vendidas em receitas


e das contas em euros e bens partilhados





rir de boca aberta


num esgar


misto de cinismo e vontade


ah ah ah pujante





não há nada melhor do que o riso com os dentes todos expostos


mesmo cariados ou implantados vários


mesmo sem brancura


rir é mostrar os dentes todos


e atirar ar de volta ao espaço

sábado, 27 de março de 2010


diz-me qual é o ângulo morto da nossa estratégia romântica

não te apanho pelo retrovisor


nem virando o pescoço


a minha visão periférica não alcança o teu corpo

diz-me

qual é o ângulo vivo

e eu mudo de posição

sexta-feira, 26 de março de 2010



não leias significados


vê apenas palavras que vibram em contacto umas com as outras


impressões masturbando-se conjuntamente


as letras não significam porra nenhuma


são apenas folhas de papel sujas




lê as sílabas como números


algarismos abstractos de tinta


não está lá mais nada




concentra-te a ler cabeças


é essa pasta que interessa


a obra prima desta coisa que se chama natureza vida e tudo

quinta-feira, 25 de março de 2010


brecht a escrever

palavras viradas para este

a luz inunda a sala vazia

chapão de espanto

lá fora o cemitério silencioso

aguarda a sua chegada


no piso de baixo

na cozinha

a prima dona do teatro

fazendo doces

iguarias raras


e no quarto incomum

o charuto pinga cinzas na urna

quarta-feira, 24 de março de 2010


envelhecer é aloirar os cabelos

e ter sardas nas costas das mãos


hoje vi a velhice a folhear westerns de bolso no banco do fundo de um eléctrico

terça-feira, 23 de março de 2010


hamlet comendo terra


batatas fritas

vinho branco

e cigarros ao relento


hamlet comendo terra

molhada

da mangueira esguicha chuva

hip hop a tocar


na familia

óculos escuros

graduados

tentativa de zoom na televisão

da alma


hamlet cuspindo terra

arlequim de palavras

disparadas alto ao microfone


segunda-feira, 22 de março de 2010


Os homens a descalçarem as galochas e o vento a zunir contra a proa do barco. Mais uma noite de Verão no mar, de volta à terra já na madrugada, exaustos. Uma peixeira esguia sentada no pontão à espera. Está zangada com a vida que lhe trocou as voltas à morte. A janela da princesa acesa e há outras peixeiras insultando a umbreira da porta. A grande puta, viajou, mas a emigração celeste afinal não foi definitiva. Um sono profundo e escuro como a morte, mas afinal havia ainda vida. E os homens a chegar do mar. As Penélopes enraivecidas com esta Helena de plástico, de seios hirtos e acolhedores de maridos. Antes do sono hospitalizado, Alice dormiu com todos os homens da vila. E agora regressada da morte, aliou beleza ao sagrado de estar viva. Agora a eleita pela natureza, também o será pelos homens, descarregando navios de sexo faminto no seu sexo puro.
A peixeira esguia abraça o seu homem com força e sussura-lhe ao ouvido:
" Ela, afinal não está morta." Os homens do mar sorriem a medo, em segredo, em surdina. Vêem a luz acesa. Há um farol de espanto, nos olhos esbugalhados de cansaço. E de novo a gritaria das peixeiras: "Puta puta puta, lá porque ressuscitaste, não és santa. Sai desta terra. Mata-te."

domingo, 14 de março de 2010


apaga-se a luz

finita la comédia


passos a fechar a porta do teatro

música

a banda no coreto anuncia a próxima viagem





sexta-feira, 12 de março de 2010



privatizem-me


as pernas


as orelhas os pés a nuca


e os cabelos púbicos




privatizem-me


e trespassem-me depois a alguém estrangeiro


por uma ninharia me deixo privatizar




sou uma edp


endividada


uma epal com problemas de canalização






vendam-me


discutimos depois o preço


sou barata

quinta-feira, 11 de março de 2010




batalhar com os olhos postos na luz


nunca nada foi tão claro


sou uma pianista das letras


executo composições


partituras


vindas de muitas partes
e algumas
da minha cabeça

quarta-feira, 10 de março de 2010


não te sentes no lugar do pendura

o volante é teu

guia

terça-feira, 9 de março de 2010



oito de março. vejo neste dia a obrigatoriedade de felicitar as mulheres pelos feitos conseguidos. ainda precisamos de um dia só para dizer isto? e se há tanta coisa em portugal que dá direito a feriado, como a república, todos os santos ou coisas que nem sabemos bem o que sejam, não merecemos nós uma pausa a sério? se é para ser de facto um dia comemorável, decretem feriado e deitem-nos nas palhinhas nuas, com incenso, mirra e ouro.

segunda-feira, 8 de março de 2010



Dois palmos de língua e um cansaço pendente na trela. Afinal morrer é isto. O cão urina na perna do rapaz que observa ainda a quente, a sua morte no passeio estendida. Lá segue o nórdico canino livremente a vida, sem casota nem dono, procurando apenas uma fêmea que o console. O rapaz espera o resgate divino, mas só lhe aparece um velha e uma bengalada na costas. Drogados! - exclama a alma desdentada e segue o carreiro do cão, zuca zuca, apoiada nas três patas. Mas eis que tudo se transforma quando um rapaz amigo, o amigo deste rapaz, se lembra do célebre boca a boca, cuja saliva é aqui substituida, por uma coca-cola de lata. O milagre do capitalismo! Que grande e temível excitação: começam então a chover dólares em Vila do Conde e o rapaz ressuscitado do casual estrangulamento, põe-se a imigar pensamentos alheios, em vez de pôr notas ao bolso. Agarra-se com dentes e unhas às efabulações dos vizinhos e percebe que alguns são dementes, pois guardam nas despensas interiores material subversivo, maços de notas e detergentes. O melhor será estrangular-se novamente, ouvir vozes é coisa de gente doente. Lá procura então plo canino berlinense, o letal agressor antigo, mas depois de muito percorrer, chega à conclusão que o melhor será esperar e crescer. Deitar-se apenas na cama. Para rapaz, já pensa demais. E pumba, cai-lhe o tecto do quarto. Em cima.

domingo, 7 de março de 2010



dava-me jeito agora um colo
ou alguém que me ajude a pagar a renda
ui que já estou a descompensar
estou tão perto da perfeição
a um triz de um ataque de pânico
e tenho estes cabo de aço na mão
posso telefonar-te? deixa-me telefonar-te
ficas a escutar do outro lado e dizes sim e não e brincas à psicanálise comigo
dói-me a cabeça outra vez esta dor que não passa e eu quero tragédia não quero drama



in Poltrona - monólogo para uma mulher de Cláudia Lucas Chéu

quinta-feira, 4 de março de 2010


tenho música empoleirada na infância


e imagens vagas no abismo da idade adulta

quarta-feira, 3 de março de 2010


uma andorinha não faz alergias

há cacau quente pra beber

e torresmos no pão

tchim tchim

ergo na imaginação lareiras a arder

à nossa

inverno interminável

terça-feira, 2 de março de 2010


impedida

a via respiratória

da emoção


gargalhar

é pôr a chave na ignição

do fígado


não há vodka ou aguardente que fermente a alegria

o riso

faz-me cócegas

e em abundância

mijo

segunda-feira, 1 de março de 2010


fiz sempre questão de cortar o cabelo no barbeiro onde iam os meus primos, bem curto e rente à nuca, nunca quis ser distinguida por atributos físicos. durante muito tempo, achei-me capaz de fazer tudo e de todas as maneiras, não havia impossibilidades para mim.
combinámos encontrar-nos às cinco e um quarto no corredor da casa da avó, mesmo por detrás do bengaleiro, junto à parede. e assim foi, perguntei à minha mãe que horas eram, pois ainda não sabia ler as horas em forma de números, confirmado o tempo exacto lá me dirigi para o corredor. ele já lá estava escondido atrás do casaco de malha azul escuro da avó e eu esgueirei-me para debaixo do kispo do pai pendurado ao lado da malha da avó. somos duas crianças em forma de agasalho, então o que fazemos, perguntei eu, já tenho as chaves do carro, disse-me ele, mas tu sabes conduzir, pergunto novamente eu, claro, aprendi com o meu pai, e então, digo eu, então vamos fugir desta casa, diz ele, mas para onde, pergunto eu, vamos até à praia e depois logo vemos, eu penso. debaixo do kispo do pai, sinto-me a rebentar de adrenalina. imaginar um futuro onde só eu é que sei, eu decido, eu escolho e tantos eu-sítios por descobrir. só eu e o primo joão. e cinco anos de existência ingénua.