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quinta-feira, 6 de novembro de 2014


É preciso ganhar
não basta ser competitivo
tens de estar preparado e ganhar
Sem a derrota do adversário é inútil o esforço
dizem que o importante é a intenção
e a dedicação e essas merdas acabadas em sufixo nominal
mas é mentira
o importante é vencer
vencer sem piedade o adversário
o inimigo
porque ganhar é isso
pressupõe o lado contrário
mesmo que faças batota mesmo que sejas corrupto
é assim em todas as áreas da pré à pós História
está na genética
no adn do animal
vencer e aniquilar o outro
é a lei básica do mais forte
do sobrevivente
podes aplicá-lo num caso extremo de vida ou morte
ou na fila de trânsito
é preciso ganhar
está em todos os anúncios
a publicidade é a forma sofisticada das gravuras nas cavernas
a estratégia é a mesma
o dispositivo é que é diferente
andas distraído ou quê?

in Deus existe; a culpa é nossa.

quarta-feira, 24 de setembro de 2014


Entrei numa velocidade qualquer esquisita, não consigo desacelerar
e a culpa é desta coisa que vive dentro de mim, de certeza,
é esta coisa que vive dentro de mim,
a que chamo doença, mas que melhor seria chamar-lhe persistência
Acho que é por isso que os médicos não conseguem ajudar-me
procuram uma patologia
e eu até sem o diagnóstico consigo prever a cura
A minha cura tem um nome
FALÊNCIA
Embora o corpo teime em prosperar
mesmo sem investimento continua a dar lucro
e não é por minha vontade, acreditem,
simplesmente não consegue desistir
Não consegue parar

Quanto tempo dura uma geração?
in Deus existe; a culpa é nossa.

domingo, 27 de julho de 2014

Podes achar estúpido o que eu vou perguntar
mas enquanto não arranjo tempo para visitar os meus amigos
a sério
tenho de falar contigo
imagina que és o meu amigo anónimo e colectivo
faz de conta que sou o quem quer ser milionário
e tu a minha ajuda de público
só tens de ouvir até ao final ou até podes estar a ver outra coisa em simultâneo
desde que pareça que me estás a ouvir 
só preciso disso
é essa a tua ajuda
não te custa nada para além do tempo
só te peço um minuto e meio no máximo
eu sei que o tempo é caro
nunca me esqueço disso
é por isso que não visito os meus amigos
a sério
não quero que a gente se gaste e o tempo passe
se precisares de alguma coisa em troca
estou disponível
desde que não seja dinheiro
sou muito bom a fazer favores
posso dar-te o link de uma massagem ou tratar da actualização do teu estado
não tenhas problemas em aceitar
as relações são transações económicas
e não há mal nenhum nisso
trocas de serviços
entendes?
promete ler até ao fim o que tenho para dizer
não precisas de responder
basta que fiques calado e penses nisso
tomo o teu silêncio como garantia de leitura
quanto tempo dura uma geração?

in Formigueiro.
Podes achar estúpido o que eu vou perguntar
mas enquanto não arranjo tempo para visitar os meus amigos
a sério
tenho de falar contigo
imagina que és o meu amigo anónimo e colectivo
faz de conta que sou o quem quer ser milionário
e tu a minha ajuda de público
só tens de ouvir até ao final ou até podes estar a ver outra coisa em simultâneo
desde que pareça que me estás a ouvir 
só preciso disso
é essa a tua ajuda
não te custa nada para além do tempo
só te peço um minuto e meio no máximo
eu sei que o tempo é caro
nunca me esqueço disso
é por isso que não visito os meus amigos
a sério
não quero que a gente se gaste e o tempo passe
se precisares de alguma coisa em troca
estou disponível
desde que não seja dinheiro
sou muito bom a fazer favores
posso dar-te o link de uma massagem ou tratar da actualização do teu site
não tenhas problemas em aceitar
as relações são transações económicas
e não há mal nenhum nisso
trocas de serviços
entendes?
promete ler até ao fim o que tenho para dizer
não precisas de responder
basta que fiques calado e penses nisso
tomo o teu silêncio como garantia de leitura
quanto tempo dura uma geração?

in Formigueiro.

quinta-feira, 26 de junho de 2014

Faz pontaria aos pássaros.
Compra uma espingarda e desata ao tiro. 
São animais que metem asco; terror de asas. 
Conhecem lugares que só podes imaginar. E fazem troça dos toutiços calvos. 
Só uma vez lhes achei graça: cagaram-te em cima, quando te baixaste para me devolveres a aliança. 
A natureza é sempre certeira; mesmo a do esgoto. 
As alianças não se devolvem. Desfazem-se.
É ácida a pontaria.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Vou escrever no muro: gosto (de ti). Por extenso, sem expectativas. Limpo e doce. Junto apenas uma prescrição: transfusões de morangos pela boca; eficaz na anemia.
A luz que subverte a escuridão; revela cores.
Verbalizo: A m o r. E tudo amornece. 
Cá dentro abre-se uma toranja. Vitaminas contra as doenças do frio.
A m o r. 
Fingir que se dorme ao colo do pai durante o Inverno. Permanecer amada.
Derreto-me. 
Tenho sempre cinco anos; apesar de tudo. 
Fiquei naquele momento, 
antes de aprender a ler. 
É preciso verbalizar muitas vezes: 
Amor
Amor
Amor.
E tratá-lo não como palavra, mas sintaxe.
Não dês músculo. Revende esse órgão.
Dá uma boa maquia. Aqui ou no estrangeiro de terceiro mundo.
No buraco que resta - minibar de poucas estrelas - há água das pedras e limão. Podes comprá-la. E bebê-la. Aproveita enquanto está fresca. 
E se tiveres uma indigestão e caíres morto, que se foda. 
Um corpo sem aquilo que vendeste
é só um caixote que tomba.

Deita-te sobre a barriga, as mamas acabam por adormecer.

segunda-feira, 2 de junho de 2014

Espreitar o avesso. E nunca mais infância.
Com sorte, sol morno pelo vidro do carro; pés descalços nos pedais. 
E na paisagem: instagram de relva e cães sem trela. 
Procura desentender.

quarta-feira, 21 de maio de 2014

Faz-te forte. Hoje é preciso fingir. 
Não te mostres, nem mesmo ao simpático desconhecido. 
Mantém-te alerta ou cometes os mesmos erros na forma idêntica.
Agarra-te bem. Como na montanha russa. 
Nunca se sabe quantas quedas tem a viagem. 
Tem pressa em ser amanhã. É lá que habita a nudez. 
E todas as coisas puras que existem, não em ti, não desta maneira. 
Limpa a imundície. Sobretudo, entre os olhos e a boca. O lugar escuro; do medo.
Preenche esse espaço com compotas e mel. E não fiques à espera. 
Alguma língua há-de descobrir-te o rasto.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014



Klaus
Hoje aconteceu uma coisa incrível.
Sabes aquele meu colega, John, o gordo – acho que já te falei dele.
O problema dele nem é ser badochas, é ser feio;
é tão feio que sinto pena
quando tenta fazer-se de engraçado para raparigas que trabalham connosco.
É impressionante como todas as mulheres se afastam dele.
Só o encaram quando tem mesmo de ser;
quando o vejo a fazer figuras tristes costumo desviar o olhar,
acho que é isto a chamada vergonha alheia.
Mas hoje ele fez uma coisa horrível.
Uma colega nossa, a Ruth, disse-lhe que
as pessoas feias não deviam continuar a reproduzir-se, assim de chofre
à frente de toda a gente, enquanto estávamos a almoçar.
Olhou-o nos olhos e disse-lhe sabe uma coisa John, as pessoas feias não deviam reproduzir-se. 

in A Cabeça Muda, Cama de Gato edições, Lisboa, 2014.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Não há terra na cidade; o chão inculto.
Na esterilidade da metrópole, só infância e velhice.
Os bairros transformaram-se num enorme fraldário.
Experimenta comprar um bilhete de metropolitano; por comparação, a tua merda torna-se-á noutra coisa, talvez fecunda. 
Na cidade tens de aprender a viajar para todos os lugares esteréis. 
Cultivar essa aridez é o exercício do cosmopolita.

in Trespasse Imóvel

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

Apostámos virar a esquina.
As minhas cuecas italianas; os teus óculos escuros. 
Metidos na autoestrada onde há máquinas a fazer de portageiros. Sem testemunhas directas. Apenas a gravação de vídeo vigilância.
Não sei quantos quilómetros percorremos à procura dessa meta perpendicular. As minhas cuecas cada vez mais usadas; os teus óculos a reflectir o outro lado da estrada.
Nenhum caminho para dobrar; e a tentação cada vez mais alta. Subimos a parada: a minha roupa íntima completa e os teus óculos escuros mais a caixa onde nunca os guardas.
Na área de serviço encontrámos o mais próximo de ser esquina.
Uma quina modesta impermeável à viatura.
Saímos do carro. E a pé percorremos o paralelo infinito da estradas: várias dentro de outra. A nossa aposta era mais uma troca.
Dobrámos o trilho: miragem de sentido único e beco.

in Trespasse Imóvel