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quarta-feira, 30 de dezembro de 2009



O vestido azul escuro de seda teve de ser trocado, estava-me grande. Está-me grande. Ofereceram-mo numa caixa de papelão daquelas quadradas, apenas fechadas por uma fita de tecido fazendo um laço. Sempre sonhei receber uma caixa assim, uma fantasia. Desde miúda que esperava pela caixa do presente. Mais do que o próprio presente, a caixa.
Eu tinha quatro ou cinco anos, já não sei e o meu pai, na época carpinteiro de profissão, construiu-me pelo natal um quadro de ardósia em tamanho grande, um banquinho para me poder sentar nele e desenhar horas a fio e ainda um pequeno apagador que fazia da minha imaginação e criação plástica práticas infinitas. Não houve possibilidade de embrulhar tudo isto devido às dimensões do conjunto, por isso o meu pai e a minha mãe colocaram por cima dele um lençol branco. Quando entrei no quarto, apenas vi coberto um volume enorme e aproximei-me a medo daquilo que disseram ser o meu presente de Natal.
Eles não tinham dinheiro para comprar nada, excepto comida e talvez algum tabaco para queimar o tempo. Aquele presente foi construído durante semanas, com trabalho árduo, horas fora da hora, material surripiado da carpintaria, restos, com amor. E só por isso, perdoo-lhes não o terem posto numa caixa de cartão. Foi o melhor presente que recebi. Na vida.
Devolvi o vestido por não me servir, guardei a caixa, ali no quarto e vou lá pôr as cartas que me escreves sempre que estás muito perto de mim. Recebo cartas quando nos olhos olhamos, assim fechados num mesmo envelope.