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quarta-feira, 5 de maio de 2010


O marido dela saiu para ir buscar uma pizza à cidade mais próxima. Ela pôs a mesa, e acendeu velas, não sabendo explicar porquê, sentia-se viva, quase romântica. Lembrou-se do vinho francês do pai que estaria algures na cave. Era uma questão de procurar. Começou a descer as escadas para a cave e os estreitos saltos franceses prenderam-se no antepenúltimo degrau. Caiu desamparada no chão e magoou-se bastante no joelho direito. Ouviu um barulho metálico no canto oposto ao seu, e blasfemou contra a incompetência do antigo caseiro por nunca ter colocado luz suficiente na cave. - Está aí alguém? - perguntou para o ar. Que pergunta tão estúpida pensou, mesmo que estivesse, logicamente que não iria responder. Tentou levantar-se, mas a coisa parecia séria, não conseguia mexer a perna. Gemeu. Ouviu novamente um som metálico. Umas chaves? Uma faca? E ficou arrepiada com estes pensamentos. Depois, ouviu passos na sua direcção, sim, eram passos. E ficou petrificada no chão a olhar para o sítio escuro de onde vinham os passos. "Não se assuste" - disse quase num sussuro a voz. "Ahhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhhh!" - disse ela num grito agudo. Depois, o fugitivo apareceu e pôs-lhe uma mão sapuda na boca. "Chiu cota! Vamos lá a acalmar. Estou aqui para ser teu amigo, nem imaginas quanto. Devias gritar assim de cada vez que olhas para o teu marido. É perigoso o gajo, sabias?" Continuou a tapar-lhe a boca com a mão, mas ela deixou de fazer resistência. "Eu agora vou destapar-te a boca para podermos conversar um bocadinho, pode ser cota? Mas olha, se gritares outra vez, vou ter que te bater. Estamos entendidos?" Ela anuiu com a cabeça. Silêncio. "Mas quem é o senhor e o que é que está a fazer na minha casa? É dinheiro o que quer?" - perguntou nervosíssima a mulher. "Digamos que sou um amigo que tu ainda não conheces, mas que te vai salvar a vida." - disse o sorridente fugitivo. "Eu fiz um acordo com o teu marido. Finjo que assalto a casa e ele limpa-te o sebo". "Isso não é verdade!" - diz ela muito agitada. "Podes crer que é, cota. Queres ver a massa que ele me ofereceu num saquinho de plástico?" O fugitivo vai buscar o saco, abre-o na sua frente. "Não pode ser, é horrível." - diz ela baixinho. "Pois é verdade. Mas olha, para perceberes com eu quero ser amigo e não curto dessas cenas à traição, tenho uma boa proposta para te fazer. Trazes-me um saco igualzinho a este e eu ponho o teu marido prontinho para ir noutro saco, primeiro ao forno e depois para uma lata. Que dizes?". Silêncio entre os dois e algumas lágrimas depois. "Digo que sim, digo que sim. Ajuda-me a subir as escadas?" - diz ela.