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domingo, 10 de junho de 2012


FILHO –
Paizinho: escrevo-te, apesar de saber que não irás lê-lo.
Nunca foste dado às tecnologias, nem relógio usas.
Dizes que te faz alergia ao pulso e à cabeça.
Na verdade, nunca te vi agarrado a nada que não fosse concreto, palpável,
tirando esse silêncio a que te agarras a maior parte das vezes.
Acho que a quietude é a única coisa imaterial que reconheces, 
todas as outras coisas invisíveis te passam ao lado.


Ainda voltando à escrita, 
ensinaste-me a segurar na caneta aos quatro anos para fazer bonecos,
e aos cinco a reproduzir palavras no papel.
A primeira delas foi
PARAR
era o que aparecia nos autocarros num néon intermitente 
PARAR
decorei as letras - e essa foi a parte mais fácil – difícil foi memorizar a ordem das letras, para quem não sabe ler é uma coisa muito complicada. Sabes, sempre associei as palavras e as letras a ti. Foi ao teu lado que, aos sete anos, li o primeiro livro de enfiada: Tom Sayer, 200 páginas a letra miúda, numa edição do Círculo de Leitores. Na nossa casa só se comprava livros que viessem no catálogo do Círculo e o critério de escolha era bastante rigoroso: só os mais baratos.